sexta-feira, 4 de maio de 2012

António Borges e o Império do Mal


"O impérop do mal
[…]
Desde a crise financeira de 1929 que o Goldman and Sachs tem estado ligado a todos os escândalos financeiros que envolvem especulação e manipulação de mercado, com os quais tem sempre obtido lucros monstruosos. Acresce que este banco tem armazenados milhares de toneladas de zinco, alumínio, petróleo, cereais, etc., com o objectivo de provocar a subida de preços e assim obter lucros astronómicos. Desta maneira, condiciona o crescimento da economia mundial, bem como condena milhões de pessoas à fome.
No que toca à canibalização económica de um país a fórmula é simples: o Goldman, com a cumplicidade das agências de rating, declara que um governo está insolvente, como consequências as yields sobem e obriga-o, assim, a pedir mais empréstimos com juros agiotas. Em simultâneo impõe duras medidas de austeridade que empobrecem esse país. De seguida, em nome do aumento da competitividade e da modernização, obriga-os a abrir os seus sectores económicos estratégicos (energia, águas, saúde, banca, seguros, etc.) às corporações internacionais.
A estratégia predadora do Goldman and Sachs tem sido muito eficiente. Esta passa por infiltrar os seus quadros nas grandes instituições políticas e financeiras internacionais, de forma a condicionar e manipular a evolução política e económica em seu favor e em prejuízo das populações. Desta maneira, dos cargos de CEO do Banco Mundial, do FMI, da FED, etc. fazem parte quadros oriundos da Goldman and Sachs. E na UR estão: Mário Draghi (BCE), Mário Monti e Lucas Papademos (primeiros-ministros da Itália e da Grécia, respectivamente), entre outros. Alguns eurodeputados ficaram estupefactos 1quando descobriram, que alguns consultores da Comissão Europeia, bem como da própria Angela Merkel, têm fortes ligações ao Goldman and Sachs. Este poderoso império do mal, que se exprime através de sociedades anónimas, está a destruir não só a economia e o modelo social, como também as impotentes democracias europeias.”
Domingos Ferreira, Professor / Investigador Universidade do Texas, EUA, Universidade Nova de Lisboa, no PÚBLICO de 04-05-2012.
António Borges
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
António Mendo de Castel-Branco do Amaral Osório Borges (Porto, Ramalde, 18 de Novembro de 1949) é um economista português.
Biografia
Depois de se licenciar em Finanças, em 1972, no antigo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade de Lisboa, estabeleceu-se nos Estados Unidos, em 1976. Aí obteve os graus de Mestre e Doutor em Economia, o último dos quais em 1980, na Universidade de Stanford. No mesmo ano iniciou funções docentes no prestigiado Institut National Supérieur Européen de l'Administration des Affaires (INSEAD), em França.
Assumiu a função de Vice-Governador do Banco de Portugal e leccionou na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, de 1990 a 1993. Nesse ano regressou ao INSEAD, tornando-se seu Diretor, até 2000. Entre 2000 e 2008 foi Vice-Presidente do Conselho de Administração do Banco Goldman Sachs International, em Londres[1]. Do seu currículo consta ainda a passagem pela Administração do Citibank, BNP Paribas, Petrogal, Sonae, Jerónimo Martins, Cimpor e Vista Alegre.[2]
Foi Consultor do US Department of Treasury, do US Electric Power Research Institute, da OCDE e colaborou com a União Europeia na criação da União Económica e Monetária. Em 2010 foi nomeado Diretor do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. É ainda Professor Catedrático Convidado da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa, Presidente do Instituto Europeu de Corporate Governance e Administrador da Fundação Champalimaud. Borges é Militante do Partido Social Democrata, onde foi Vice-Presidente da Comissão Política Nacional, entre 2008 e 2010.
É proprietário agrícola no concelho de Alter do Chão, onde é Presidente da Assembleia Municipal, e donde a sua família materna era oriunda e titular.
Presentemente, foi encarregado pelo Primeiro-Ministro de Portugal Pedro Passos Coelho de liderar uma equipa que acompanhará, junto da troika, os processos de Privatizações, as renegociações das Parcerias Público-Privadas, a reestruturação do Setor Empresarial do Estado e a situação da banca, anteriormente da competência do Ministério da Economia e de Álvaro Santos Pereira.[3]

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vamos a um manguito, Seguro?


No último debate quinzenal com o PM, Seguro fez questão de se demarcar da elaboração do agora denominado Documento de Estratégia Orçamental e quanto ao qual o PS não foi havido nem achado.
E rematou mesmo com os votos de boa viagem ao PM, garantindo que este iria só a Bruxelas.
Agora, depois de estar apresentado em Bruxelas o que se classifica de mera “base técnica e provisória”, vem o PSD clamar por contributos que ele, PSD, possa considerar como válidos e quase exigindo que o PS o faça, com indicação das despesas que ainda possam ser cortadas.
Como se estivesse apenas em causa o corte de mais despesas, para o quê daria jeito poder ter um bode expiatório e que seria o PS.
Veremos se agora, a esta interpelação do vice-presidente do PSD Moreira da Silva, o PS se decide por um manguito em forma, sem rodeios. Lembrando que foi por coisas assim, embora mentindo, que o PSD chumbou o PEC4.

Última hora: Mendes Bota é contra o novo AO...


Votou-o favoravelmente mas, confessa, “A disciplina partidária reinante no nosso sistema político-partidário pode obrigar a votar o absurdo”. Com canalhas desta estirpe, capazes de votar no absurdo, estamos bem representados na AR.
Mas nisto Botas está bem acompanhado pois, afirma, “Até hoje, não identifiquei, no meu círculo familiar e de proximidades, uma só pessoa que se manifeste favorável ao famigerado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1990”. E isto quer dizer uma coisa: há muitos mais canalhas na AR, pois certamente que entre os seus próximos se incluem outros deputados do PSD, se não todos.
Apresenta Botas um argumento que se veja no espaço dado hoje pelo Público? Não, até porque, e felizmente para nós, se recusa a discutir “as teses da etimologia ou da fonética”. Apesar disso, Botas contabiliza ganhos e perdas com esta tirada: “Podem os editores dum lado e doutro do Atlântico esfregar as mãos de contentamento negocial, mas o seu ganho é minúsculo à luz do nosso prejuízo maiúsculo”.
Uma tirada à altura de Botas. Um cromo, um impagável cromo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Alan Turing (1912-1954)


Tido por pai da informática, com importante contributo no desenvolvimento da ciência da computação, na formalização do conceito de algoritmo, na criação dos modernos computadores.
Trabalhou para os serviços secretos ingleses construindo a Bombe, máquina que permitiu testar todas as posições possíveis dos rotores das enigmas - máquinas de encriptação - e, desse modo, decifrar as mensagens trocadas pelas tropas alemãs. Com o impacto que se possa imaginar no desenlace da Segunda Grande Guerra Mundial.
Contributos notáveis a todos os níveis. Mas era homossexual quando na GB os actos homossexuais eram ilegais. Turing aceitou a castração química como alternativa à prisão, sofrendo a humilhação da sua exposição pública e de ver os seus seios crescer e as suas formas tornarem-se mais femininas.
E suicidou-se aos 41 anos.

Um abaixo-assinado em 2009 pedindo a reabilitação da sua memória mereceu apenas um lamento do então primeiro-ministro Gordon Brown pelo tratamento dado a Turing.  
O governo de David Cameron recusa o pedido de perdão oficial com o pretexto de que Turing foi devidamente condenado por aquilo que então era tido por crime.
Um conservador é isto: alguém sentado na merda feita no passado. E feliz.

Cantinho dos cromos - Prof Espada


Era estudante quando, em sessões de café – recorrentes locais de estudo à época – fazia pausas olhando o DN que, de tão oficioso que era, publicava na íntegra os inenarráveis discursos do almirante Tomás (com h, eu sei), particularmente os daquelas visitas ao longo do país. E quanto não me divertia, lendo-os para os colegas presentes, tentado imitar aquele que igualmente nos enchia os ouvidos na rádio e na televisão.
Agora ainda se vai arranjando alguma coisita pelos jornais: um José Manuel Fernandes que, de tão sério, a sério ninguém o leva, a um exaltado e enraivecido Santana Castilho que parece que já nem com ele concorda. Pelo meio ficam outros, tesourinhos deprimentes, como é o caso do professor Espada que hoje me deixou perplexo com a crónica a que deu o título “Surpresa no Brasil, choque em Portugal”.
E choque e surpresa porquê?
Espada foi ao Brasil e isto quando, segundo diz, já se considerava, por razões da idade, alheio a qualquer surpresa. Há quem envelheça depressa ou quem de tão pedante já se sinta detentor ou conhecedor de tudo. Vai daí aterra em Porto Alegre e assiste à 25ª edição do Fórum da Liberdade, promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais, parecendo-lhe, afirma, estar em Nova Iorque ou Washington, que Espada só usa como comparação cidades assim. De facto, naquele fórum, celebrava-se “democracia e liberdade, os direitos da pessoa humana e, por essas razões, o livre empreendimento, a limitação do Estado, o combate à corrupção e ao compadrio promovido pelos dinheiros públicos…”
Isto com “uma organização ultraprofissional, amaciada pela incrível simpatia brasileira” e com a presença de “milhares de pessoas aprumadas, devidamente vestidas, pontuais, alegres e bem-educadas”. Espada estava radiante, estava mesmo parvo com o que via.
E regressa de peito cheio, cabeça fresca, quando experimenta um choque logo que aterra em Lisboa. Mas não se tratava das medidas de austeridade, do mau desempenho do Benfica ou da bolsa, do aumento dos preços dos combustíveis, da seca, ou dos taxistas do aeroporto, pouco aprumados e mal vestidos. Nada disso. É que Espada, pessoa sensível, não gostou de ver numa revista de grande circulação o título “Precisamos de um novo 25 de Abril”. Ele nem queria acreditar. Que se desejasse um “golpe de Estado” quando se está em plena democracia. E admitia mesmo ter aterrado, por engano, na Guiné, não precisando de qual delas se trataria. Que, meus caros, Espada é mesmo de extremos, ou não tivesse já sido da extrema-esquerda até perceber quem é que lhe permitiria uma pose aprumada, um vestir como deve ser, uma postura pedante.
Felizmente regressaria à Polónia no dia seguinte donde nos continuará a brindar com os seus deprimentes tesourinhos que rotula de “Cartas de Varsóvia”, no Público, às segundas, numa banca ou quiosque perto de si. E bom proveito, sem esquecer que rir faz bem à saúde.

Leituras em dia:"Operação Antropóide" - Laurent Binet


Não se trata de um “era uma vez”…
Na verdade, Laurent Binet foge à tentação de inventar para ser fiel à realidade, à verdade histórica. E narra factos históricos de uma forma muito original e que lhe valeu o Prémio Goncourt de 2010 para o 1º romance. No caso as circunstâncias que rodeiam o atentado contra Heydrich que Binet descreve como “o homem mais perigoso do IIII Reich, o carrasco de Praga, o carniceiro, a besta loira, a cabra, o judeu Süss, o homem de coração de ferro, a pior criatura jamais forjada pelo fogo escaldante dos infernos, o homem mais feroz que alguma vez saiu de um útero de mulher…”
A ironia: o inventor da “solução final”, esta besta loira, era acusado de ser judeu na escola e, no entanto, fez jus ao HHhH, iniciais da frase alemã “o cérebro de Himmler é Heydrich”, porque ele suplantava, em atrocidades, o seu chefe e carrasco Himmler.
É por causa das marcas deixadas por estas bestas que Binet afirma que Daqui a 600 anos vamos continuar a falar da Segunda Guerra Mundial porque é o mal absoluto, é o heroísmo absoluto, é um reservatório de história trágico, terrível, extraordinário” (Ípsilon 06-05-2012).
E heroísmo absoluto é o de quem, encarregados de eliminar Heydrich, sabe antecipadamente de que o fazem com sacrifício das suas próprias vidas, no caso as dos paraquedistas Kubis e Gabcik, nesta obra homenageados, embora, como escreve Binet “Os que estão mortos estão mortos, e é-lhes indiferente que lhes prestem homenagem. Mas é para nós, os vivos, que isso tem significado. A memória não tem nenhuma utilidade para aqueles que ela honra, mas serve aquele que dela se serve. Com ela me construo, e com ela me consolo.”
E quando temos que nos defrontar com novas bestas loiras, por França, pela Alemanha, é de desejar que a memória não seja curta e que, sobretudo, nos seja útil.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um fdp no Bahrein

Cartoon de Carlos Latuff
Cabecinha pensadora
Penso que o desporto não se deve envolver na política”… “os problemas do Bahrein nada têm a ver com a F1”.
Pergunta de um fdp
“Imaginemos que não havia corrida no Bahrein: os problemas parariam de imediato?
Uma realidade que o fdp não desconhece
O Bahrein teve também a sua revolta árabe mas a monarquia local aniquilou-a de forma violenta e calou-a até agora.
A cabecinha pensadora é de Bernie Ecclestone que detém os altos direitos comerciais da F1. Quem é o fdp? É ele também, pois claro.

Prémios sem cacau...


Uma iniciativa louvável:
A Câmara de Torres Novas criou o Prémio Maria Lamas, no valor de 10.000 euros.
Uma miséria:
A referida autarquia não ainda não pagou o prémio nem divulgou a decisão do júri, mesmo junto dos vencedores.
Uma canalhice:
O Presidente da autarquia chegou a levar à reunião de câmara uma proposta para cancelar o prémio.
O caso não é virgem. A Câmara de Beja procedeu de modo semelhante com um prémio de pintura, não pagando o prémio de 1.600 euros ao vencedor, mas ousando expor a obra premiada sem o seu consentimento. Aqui uma seguradora resolveu o problema, adquirindo a obra pelo valor do prémio.

Um dia não haverá balas para tanto tiro nos P(e)S...

Conde Rodrigues

Depois do que se sabe, manter a indigitação deste senhor para o Tribunal Constitucional é um tiro no pé. E qualquer dia podem mesmo acabar as balas.
Errar é humano. Fazer as coisas à toa releva falta de jeito. Insistir na escolha é inabilidade política, é ser irresponsável.

Allô, allô, France! JMF vient d’écrire “Le jour de gloire… de misère est arrivé”


Topem este pensador, franceses, profundamente angustiado com o destino que vos aguarda. Mas não se limitem a topar: leiam e meditem nas suas análises. E, vá lá, sigam mesmo as suas sugestões, implícitas ou explícitas. Verdade que por aqui já não lhe ligamos, mas isso é uma afronta e, sabe-se, ninguém é profeta na sua terra. Se vos aprouver, fiquem por aí com ele para que vos ilumine. O que agora acaba de escrever num jornal que foi de referência até ele o estoirar deve obrigar-vos a pensar duro, muito duro. Se não, reparem nisto:
“É muito deprimente verificar como um país como a França parece incapaz de reconhecer os problemas”.
Mas não se preocupem com a depressão do JMF. Numa outra crónica fiquei a saber que o senhor tem seguro de saúde e, além do mais, embora dele seja crítico, pode também contar com o nosso SNS.
“Sarkozy foi mau Presidente, Hollande consegue ser um candidato com ainda piores ideias”.
Não digam nada aos visados, para que eles não perguntem quem é este nosso cromo. Digam apenas, se for necessário, que é um gaijo ali da África Central ou coisa assim, num dia em que acordou mal disposto, a ressacar de uma bebedeira.
“Perante a perspectiva de mais cinco anos de “frigideira”, os franceses parecem dispostos a saltar para o fogo. Directamente. Pela mão de Hollande, por estes dias transformado em esperança derradeira de uma esquerda europeia à procura de rumo”.
Desta tirada é que convém dar conta exaustiva aos visados, aos franceses. Que isso de frigideira, embora não seja a do Tarrafal, agora desactivada, deve doer pra burro. E que raio: haverá necessidade de estoirar com as reservas de azeite, das margarinas, do óleo fula?
E atenção: com a chamada “frigideira”, no Tarrafal havia também a “Holandinha” (estão a topar: Hollande, “Holandinha”…), cela contígua à cozinha, onde eram trancados os presos cujo castigo era não serem alimentados mas sim torturados com o cheiro que lhes chegava da cozinha.
O que é que ele sugere como alternativa? Nada, que isso já era pedir de mais a este pensador e analista que muito nos diverte, às sextas, no Público.
Mas notem: o que para nós é uma diversão pode para vós vir a ser um tormento. É que ele gosta de ter razão e tudo fará para isso, nem que tenha que ajustar as suas análises à realidade que se apresente mais tarde. Ele nunca perde o pé, como no caso da guerra, invasão, do Iraque, pelo seu ídolo Bush. O que ele não fez para demonstrar, a torto e a direito, que a razão estava com ele, a começar pela crença na existência nas tais armas que nunca ninguém encontrou e que foram o pretexto para a invasão e para a guerra que está a acabar (?) como a gente sabe.
E se ele topa aquela coincidência de Hollande, "Holandinha", não sei não...





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Um dilema

Artur Barrio - Artista Plástico

"A gente não sai da vida sem cicatizes e sem rugas. A única maneira de escapar a isso é morrer cedo."
Artur Barrio - Público 18-04-2012



segunda-feira, 16 de abril de 2012

Leituras em dia: "A Visita do Médico Real" - Per Olov Enquist


Era uma corte com saberes sob a forma de dogmas e, por isso, inimiga da liberdade de pensamento, indiferente a todo o humanismo e de uma feroz intolerância. E, para além disso, com o poder, absoluto, nas mãos de um rei louco, dependente e manobrável.
Tudo no auge do iluminismo em que a Dinamarca, apesar de tudo, se chega a envolver mas que sucumbe perante um fanático religioso, aniquilado que foi um arauto do iluminismo, no caso o médico real.
Haverá no livro muito de ficção, mas esta não será de todo alheia à realidade de então. E já há muito Hamlet tinha afirmado haver algo de podre no reino da Dinamarca.
E porque nem tudo é mera ficção é que vale a pena estar livre de um regime de pacotilha, de legitimidade insustentável, como é o monárquico.

MAC - Quem responde a Correia de Campos?


“Por que razão deve a MAC ser penalizada com a sua partição e desmantelamento, com o argumento de excesso de instalações, quando o que porventura pode estar a mais são as outras duas [Magalhães Coutinho e Hospital de São Francisco Xavier], cujo rendimento, prestígio e qualidade não se lhe equiparam? Não haverá um útil destino a dar às instalações que nunca se deveriam ter construído ou reconstruído, no HSFX e na Magalhães Coutinho?
Ao visarmos a MAC para o camartelo, não estaremos simplesmente a esconder uma cupidez por recursos valiosos, esquecendo até o património arquitectónico, sem ter garantido o necessário carácter alodial do terreno e edifício, caso se destinem a fins diversos dos actuais?
Que mal virá ao mundo em deixar viva e actuante, até que o Hospital de Todos os Santos seja edificado, a melhor maternidade do país, a qual, por seus méritos, se destina a ser naquele integrada?
Que súbita onda de zelo orçamental contamina os nossos decisores, para uma suposta economia temporária de ridículo montante, face à esmagadora dimensão de tanto desperdício conhecido?
Que súbita falta de senso político afecta o nosso executivo, em se deixar envolver numa querela afectiva de onde só poderá sair perdedor sem glória?”
Parte final da crónica de Correia de Campos no Público de 16-04-2012

sexta-feira, 13 de abril de 2012

CASO PORTUCALE - UMA VERGONHA


A dois meses das eleições legislativas de 2005, enquanto arrumam papéis, três ministros  assinam despacho que permite o abate ilegal de mais de dois mil sobreiros, a favor de um empreendimento turístico de empresa do BES.
Meses antes, o mesmo BES, por imperativo legal, deu conta de 115 depósitos em numerário num valor superior a um milhão de euros numa conta do CDS, em que como doador aparece mesmo o tal Jacinto Leite Capelo Rego, porque isto dava mesmo para gozar com o pagode.
A partir daí temos 11 arguidos, incluindo dirigentes do CDS, acusados, entre outros crimes, de tráfico de influências, abuso de poder e de falsificação.
Passados sete anos, nem uma só acusação provada, de acordo com sentença cujo acórdão foi lido a alta velocidade, sem pontuação, por vezes de forma impercetível, como se a vergonha queimasse. Isto é: crimes zero. E desculpem o incómodo.
Prova-se assim que pelas malhas da justiça não passa o pequeno furto do sem-abrigo num supermercado. Aqui o MP é eficaz e consegue convencer o tribunal. Quando há graúdos ao barulho e muita massa pelo meio, é o que se vê: não houve abate ilegal de sobreiros, nem financiamento ilegal a partidos, chegando-se ao ponto de se pôr em causa a honra e o bom nome de uns quantos anjinhos que a esta hora já devem ter estoirado umas boas garrafas de champanhe.
Nas escutas feitas a este caso surgiram as suspeitas sobre eventual corrupção no caso da aquisição dos submarinos, igualmente com proximidades a governantes de então. E podem fazer já apostas sobre o seu desfecho, caso chegue a tribunal.
 

domingo, 8 de abril de 2012

As angústidas de D Mena Mónica


D Mena Mónica passeou-se pelos jardins de Lisboa e ficou abismada com o que viu num jardim próximo de sua casa: os homens jogavam às cartas, as mulheres entretinham-se a acabar um infindável napperon. E o drama consistia na angústia de D Mena Mónica não ter como possível uma “conversa séria” com tal gente porque, com a D Mena Mónica, só mesmo conversas a sério. Pela sua crónica no Expresso de 06-04-2012 não se sabe se tentou conversar seriamente. Mas admito que perante homens que jogam às cartas – que horror – e mulheres entretidas com um napperon, falou mais alto o preconceito da nossa socióloga: aquilo não era gente para ela. E ainda bem para os jogadores da sueca e da copa e as senhoras do napperon pois, interroga-se D Mena Mónica “Mas como falar das minhas angústias a compatriotas que nunca leram Camilo, Eça ou Cesário, que nunca ouviram a música de Mozart, de Schubert ou de Verdi, que nunca olharam uma estátua de Bernini, um quadro de Turner ou a nave de Alcobaça?”
Sim, que estes analfabetos vindos do campo, afirma ela de forma algo contraditória, apenas terão lido “ o livro de São Cipriano que ensinava a conquistar moçoilas, combater o demónio e amontoar uma fortuna”.
É muito exigente a D Mena Mónica quando trata de abordar as suas angústias. Mas que interesse podiam ter tais pessoas nas angústias de D Mena Mónica, quando o importante era ter o maior número de trunfos possível ou não apanhar copa alguma, consoante o jogo, ou, então, despachar o napperon?
D Mena Mónica não se enxerga e está muito longe disso. Até parece que refina com a idade. E, assim, lá teve que voltar com as suas angústias e, desta vez, com a certeza de que existe um abismo entre uma pedante e a gente simples. E uma coisa deveria deixá-la a pensar: aqueles “ainda de boné na cabeça” e “ainda de lenço na cabeça”, como os descreve, conviviam entre si, ao seu modo e jeito. D Mena Mónica entrou e saiu com as suas angústias. Quem teria, de facto, pachorra para a aturar?
E pagam à senhora para escrever estas bacoradas no semanário de maior circulação? Por que raio?

terça-feira, 27 de março de 2012

“… o meu marido adora cachuchos.”


Eu não. Mas adoro ler Natália Nunes de quem encontro livros com edição de uma editora de referência, ou de catálogo, a “Relógio D’Água”, livros como que ao desbarato.
No caso da “Assembleia de Mulheres” bem se pode dizer que é verdade que nas obras de um escritor há sempre experiência vivida, como afirmava Natália Nunes. De facto, ao ambiente do enredo do livro não será alheia a profissão de bibliotecária – arquivista exercida pela autora, embora aqui se trate do contexto de um museu da farmácia, com uma exploração inteligente do que são as pequenas intrigas fundadas apenas nas invejas, despeitos e preconceitos, tudo descrito com recurso a uma técnica original na altura, anos 60 do século passado.
“… Quando chegámos a casa, às quatro da manhã, fomos ao frigorífico, esfomeadas. Ó filhas, nós não gostamos da comida mascarada. O tal célebre guisado de tartaruga, que eles servem com aquele espavento todo, aqueles criados vestidos de polinésios e a música exótica… Não presta absolutamente para nada. E a salada de agriões com bagos de romã e pinhões… um horror. O que nos valeu foram os cachuchos do frigorífico – o meu marido adora cachuchos.
(pag 142 da 2ª edição)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Afirma Tabucchi


António Tabucchi (1943 – 2012)

“As dúvidas são como manchas na camisa lavada de branco, e a tarefa de cada escritor é suscitar dúvidas, porque a perfeição gera ideologias, ditadores e ideias totalitárias”.
“Um milímetro a mais para um lado e és um herói, um milímetro a mais para o outro e és um cobarde”.
“ Deveria ter-lhe custado muito [a Judas] denunciar Jesus. Mas graças a isso Cristo pode ressuscitar. Se não houvesse Judas, Cristo teria vivido até aos 80 anos”.
“É uma das maiores desgraças que pairam sobre o mundo. As pessoas que estão no poder, sobretudo, devem pensar que nunca vão morrer. É por essa razão que são tão estúpidas. A modernidade elidiu a ideia da morte. É uma omissão incrível. Deveria ensinar-se Aos miúdos, na escola, da maneira mais natural, que temos de morrer. Mas a nossa sociedade escondeu totalmente a ideia da morte. Em compensação, porém, estamos cheios de cadáveres. É só abrir a televisão. Como pode funcionar bem uma sociedade em que há muitos cadáveres mas não há a ideia de morrer?”.

quinta-feira, 22 de março de 2012

À saúde dos estarolas…


O IABA – o imposto sobre o álcool e as bebidas alcoólicas – é o único imposto indireto relevante cuja receita cresce, segundo o Público de hoje.
E não se trata de beber para esquecer. Tenho por certo que todos temos boas razões para comemorar os êxitos deste nosso governo de estarolas, com mais um copo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Só à bastonada

Quando em Dezembro passado foram criadas as taxas moderadoras para atos de enfermagem, a então bastonária rejubilou, de forma estranha, afirmando que isso significava o “reconhecimento claro e inequívoco” dos cuidados prestados pela classe de enfermeiros.
Na altura comentei que os enfermeiros iriam pagar por isso.
E cá temos, agora – Público de hoje -, o novo bastonário a reconhecer a evidência: muitos utentes estão a abandonar os tratamentos, com as inevitáveis consequências: redução da qualidade de vida, maior taxa de infeções, mais readmissões hospitalares.
E não deve tardar para que os enfermeiros sintam na pele o efeito: o ajustamento do número de profissionais nos serviços do SNS à redução dos seus utentes.
Se assim for, a medida do ministro fui duplamente estratégica: mais receita, redução das despesas de funcionamento. Quanto então apenas se admitia a primeira como objetivo.
O atual bastonário queixa-se de que a sua ordem não foi então ouvida sobre a medida. Mas a reação da sua antecessora significou bem que tal não era, para ela, necessário.
 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A mana Graça, uma mulher de força e raça

Todos gostamos muito dela, do nosso Garçon como muitas vezes a tratamos com carinho.
Terça de Carnaval, dia da alta hospitalar, ainda foi mascarada em pleno HSM pela cunhada Maria João para espanto dos presentes. Ontem já foi à bola, com o Rui.
Um pequeno defeito: o clube que escolheu, mas ninguém é perfeito.
Mas isso de um médico te dar bilhetes para a bola quando a mim, um dia, me tratou muito mal numa zona abaixo das costas ao ponto de gritar, é de uma grande injustiça. Se é.

O Estado asfixiante ou as teorias da treta

Eu sou do tempo em que alguém, contra o que a história e a doutrina tinham já consagrado, veio com uma explicação do Estado e da sua natureza que não lembraria ao diabo, mas que ocorreu a académicos acabadinhos de chegar dos EUA.
Segundo eles, a compreensão do Estado, da sua necessidade e da sua natureza, poderia ser explicada com um suponhamos porque, quando a base é fraca, nada como um recorrer a um suponhamos. E havia que supor que existia uma ilha em que a generalidade dos seus habitantes vivia da pesca. E que para a segurança da atividade piscatória, forçoso era que fosse construído um farol. Farol que deveria ser custeado por todos. Mas como obrigar todos a suportar os custos do farol? Pois através da prévia criação do Estado. E pronto, clarinho como a água. A ser assim, o Estado era uma entidade acima de todos e, contrariamente ao que afirmavam os marxistas, jamais um instrumento ao serviço das classes dominantes e que são dominantes exatamente por começarem por dominar o Estado e, desse modo, exercerem um poder sobre as classes mais fracas ou desfavorecidas.
E vem isto a propósito de ainda hoje haver quem teorize ou queira teorizar como se o Estado fosse uma entidade mítica, ainda que se reclame a necessidade da sua reforma, da sua atualização, da sua modernização. Só que tal reforma ou modernização ainda se fará, de novo, de acordo com os interesses das classes dominantes e da sua salvaguarda. Nem valendo a pena fingir que assim não é.
E exemplo disto é o que hoje no Público vem proposto por um jurista barra gestor, certamente habilitado para o que se deve fazer em prol de um Estado de “um país prestigiado e digno não só internamente, como no plano do relacionamento com as outras nações”. Tal e qual.
Para tanto são enunciados 8 objetivos a prosseguir, interessando fixar a ordem por que são enunciados, que isto do seu ordenamento já quer dizer muita coisa.
Em primeiro lugar, o jurista barra gestor, entende se necessário “dotar o país das adequadas condições de segurança para pessoas e bens”, onde eu leio a preocupação com a proteção do costado e da propriedade. E, numa sociedade de classes, fácil é identificarmos os maiores ou exclusivos interessados na plena prossecução deste objetivo, o primeiro enunciado por este teórico.
O sétimo entre os oitos objetivos atesta claramente que há e terá que haver na sociedade um extrato de coitadinhos e quanto aos quais o Estado será magnânimo. De facto, o jurista barra gestor estipula que para eles deverá o Estado Assegurar um nível de subsistência mínimo, fornecendo gratuitamente os cuidados de saúde e o acesso à educação, apenas e só aos manifestamente carenciados e incapazes. Do que há que concluir que para estes, para os coitadinhos, bastará o assistencialismo orientado para “um nível de subsistência mínimo” e, claramente, o fartar vilanagem para os senhores.
Acontece que os coitadinhos dispensam hoje tais atos de misericórdia e caridade na forma das migalhas que caem da mesa dos senhores.
E um Estado verdadeiramente moderno é aquele que propicia a todos as mesmas oportunidades e meios de aceder ao que de mais exigente se possa ter na saúde e na educação. Para falar apenas da saúde e educação. Sem senhores e coitadinhos.
“O Estado asfixiante”, por Miguel Feliz António, Jurista/Gestor
Público de 27-02-2012
 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Leitura em dia : "Rixa de gatos" de Eduardo Mendoza


Uma intriga que diverte, apesar de estarmos nas vésperas do início da guerra civil espanhola, com a conspiração fascista em curso, cenas de espionagem com todos a espionar todos, numa Madrid já quase a cheirar a pólvora.
Este o contexto em que um especialista inglês da pintura espanhola do seu Século de Ouro é chamado para certificar a autoria de um quadro detido por um falangista, e cuja transação poderia garantir a aquisição de armas para aos inimigos da república, esta também minada por quezílias internas.
E vêm por arrasto as paixões e traições num ambiente em que parece que ninguém está certo de ninguém, a par das conjeturas que se fazem acerca do quadro em questão, seja quanto à sua autoria, seja quanto ao que está por detrás da sua criação.
Se era ou não da autoria de Velásquez, como garantia o especialista inglês, nunca se saberá, pois o quadro desaparece num incêndio.
E entre amores e desamores, retenho uma frase no final do romance, de uma ternura ambígua, ou de uma ambiguidade terna: “As mulheres são uma maçada, mas são o melhor que temos”.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

HOLOCAUSTO FINANCEIRO


A expressão não é minha, é recente, e vai fazendo o seu percurso. E podemos estar, se é que não estamos mesmo, perante um nova forma de subjugação dos povos a partir da sua asfixia financeira e com consequências tão trágicas como a do holocausto em que as vítimas foram, sobretudo, os judeus.
Foram acertadas as medidas tomadas no pós-guerra quanto à Alemanha no sentido de lhe ser retirado tudo aquilo em que assentava o seu poder bélico de tão trágicas consequências. Mas, por distração ou conivência de tantos, a Alemanha, a quem foi permitida a reunificação, é hoje, como por diversas vezes o foi no século XX, uma ameaça que é conveniente não menosprezar, com uma nova arma: o poder financeiro que alcançou, articulado com o euro.
A Grécia já está a experimentar o que pode ser este tipo de holocausto. E não nos iludamos com as permanentes afirmações de que Portugal não é a Grécia. Hitler também seduziu uns quantos que, idiotas inúteis, foram espezinhados sem apelo nem agravo, quando chegou a sua vez.
Asfixiar as economias periféricas para comprar os seus ativos a preços de saldo pode ser apenas o começo de um drama em que ninguém, salvo o monstro alemão, se safará.
E mais vale ser agora contra esta voracidade alemã, que mais tarde, quando não houver remédio algum.
Não deixemos o monstro engordar ainda mais. E um alerta: um novo tipo de guerra pode já ter começado, e estamos quase todos desarmados. Como que anestesiados.
 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um argumento original contra o novo Acordo Ortográfico


Somos mesmos originais. Mas alguns abusam e nada lhe acontece?
Um assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa apresentou queixa na Provedoria de Justiça reclamando que se declare inconstitucional o novo Acordo Ortográfico (AO) porque, repare-se, a Constituição foi redigida segundo a anterior ortografia. Para este ilustre professor, primeiro dever-se-ia fazer uma revisão constitucional para que a ortografia da Constituição fosse alterada e, deduzo, só depois se deveria aprovar o novo AO.
Mas como redigir a Constituição segundo um AO quando este ainda não podia ser aprovado por ser… inconstitucional? Não faz lembrar o caso do ovo e da galinha?
E se Camões se lembrasse de vir colocar em causa as modernas edições dos Lusíadas por não estarem conformes com a ortografia do seu tempo?
Claro que isso não lembraria a Camões que, mestre da língua, sabe que importante é o significado da palavra e não tanto a maneira como a grafamos ao longo do tempo.
PS. Texto provocado por notícia do Público de hoje.

PS do Tó Zé estabelece novas parcerias


O movimento Renovação Comunista (RC) existe. Desde 2003. E tem um presidente, o bem conhecido Paulo Jacinto, que eu não conheço, mas também é verdade que conheço pouca gente, mesmo que apenas de cara. Este Jacinto nem de cara.
Pois, decorridos 8 anos de existência, segundo o Público de hoje, uma delegação da RC vai encontrar-se com a direção do PS do Tó Zé, para “troca de opiniões sobre a atual situação do país e a política do atual governo”, bem como discutir “saídas para a crise”. E isto, certamente, porque a direção do PS do Tó Zé e a RC ignoram mutuamente as posições de cada um sobre tal matéria.
Agora sim, o PS do Tó Zé começa a acertar o passo.
PS. A ilustração do post não resulta de qualquer lapso ou distração.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Em defesa dos direitos adquiridos - Noronha do Nascimento


[…]
Por último e para terminar, a questão dos “direitos adquiridos” que renasce como a Hidra sempre que entramos em crise económica ou social.
E a sentença dos comentaristas é quase sempre unânime: em época difícil não há direitos adquiridos, o que quer dizer que se pode atingir, ou seja, baixar, sem limites definidos, as pensões de reforma fixadas, os vencimentos ou salários estabilizados e as prestações acordadas.
Não se nega que em situações excecionais possa haver soluções excecionais, mas com limites definidos, à semelhança do que sucedeu no fim da 1.ª grande guerra quando surgiu a teoria da imprevisão abrindo brecha no princípio da estabilidade contratual; mas o curioso na opinião daqueles comentaristas é o unilateralismo do seu raciocínio incapaz de perceber os efeitos jurídicos bilaterais que ele contém e que, de certeza, muita gente recusará.
Os direitos são ou originários ou adquiridos.
Originários são praticamente tão-só os direitos de personalidade, entre os quais se contêm os direitos potestativos de aquisição de futuros direitos adquiridos; adquiridos são todos os outros.
Vale isto por dizer que direitos adquiridos não são apenas aqueles de que se fala em épocas de crise, isto é, as pensões fixadas, os salários estabilizados e as prestações acordadas; são também os direitos obrigacionais dos credores, os direitos de propriedade e os direitos societários dos sócios dominantes ou não.
Defender que não há direitos adquiridos é dizer que todos eles, mas todos, podem ser atingidos, diminuídos ou, no limite, eliminados; ou seja, é admitir o regresso ao tempo das ocupações, das autogestões ou do confisco porque estamos perante direitos adquiridos alteráveis perante situações excecionais.
Será que se está preparado para aceitar todas, mas todas, as sequelas lógico-jurídicas de quem assim pensa?
Os direitos adquiridos são o produto final de uma civilização avançada que se estruturou à volta da teoria do pacto ou do contrato social que, desde o séc. XVII foi sendo elaborada por pensadores diversos desde Hobbes, Francisco Suarez, Locke, até à obra conhecida de Rousseau, que fundamentou a legitimidade do poder no pacto social que os cidadãos aceitavam delegando o seu exercício e retirando, assim, ao príncipe a titularidade originária daquele.  A evolução posterior desta teoria levou à conceção da soberania popular delegada pelo povo nos seus representantes eleitos, isto é, levou à democracia representativa; mas, nela, permanece a noção subliminar do contrato tacitamente aceite pelo povo e que contem em si, também, a ideia de solidariedade entre os cidadãos que contratualizaram o pacto.
Quando o contrato se rompe, rompe-se também a solidariedade, porque tal rutura traz sempre consigo a violação do equilíbrio das prestações contratuais com o benefício de uns em detrimento de outros.
Num artigo publicado em 1855 no Porto e que precedeu as suas “Memórias do Cárcere”, Camilo Castelo Branco escreveu isto mesmo de forma exemplar.
Veja-se esta pequena passagem desse seu texto: “A inércia da autoridade, que não se lhe perdoa, é talvez a consciência de que ninguém se deixa morrer de fome, enquanto o braço pode dedicar-se a um trabalho qualquer, embora desonroso. Ao homem desamparado não se lhe podem pedir contas do pacto  social, porque a sociedade não quis aliança com ele quando o desamparou.”
E termino aqui a citação porque o que se segue na escrita de Camilo é verdadeiramente perturbador.
No relatório de 2008 do Eurostat, Portugal é, na União Europeia, um dos países com maior desigualdade de rendimentos entre ricos e pobres, só ultrapassado pela Roménia, Bulgária e Letónia e logo seguido, entre os países mais desenvolvidos (e a fazer fé em Tony Judt) pela Grã-Bretanha.
O mesmo relatório adverte que, na União, 1 em cada 6 cidadãos está em risco de pobreza, número vermelho similar ao que existia em Paris por volta de 1788/1789, os anos do Rubicão; e a Dinamarca, país “insuspeito”, é (na União) aquele onde o endividamento individual bruto atinge maior percentagem.
O que isto significa em termos de coesão social ou – dito de outra forma – em termos de solidariedade que, psicologicamente, sustenta o contrato social pode ser devastador. Daí que falar na inexistência de direitos adquiridos num discurso unilateral e unipolar, ainda por cima num país de rendimentos tão desiguais, pode ser a abertura da caixa de Pandora que nos leve ao Inverno (ou ao Inferno) do nosso descontentamento.

Luís António Noronha Nascimento
Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
Discurso pronunciado na abertura do ano judicial 2012 (parte final)

"quando o Diabo reza"


Reze ou não, o facto é que diabo é a única palavra grafada com maiúscula no título. E já dá para sorrir.
Depois, o livro apresentado com uma fitinha para se marcar onde se vai e se recomeça a leitura, tem o subtítulo de “vadiário breve”, e não breviário, que isso é mais para os padres católicos. E de novo sorrio.
E o gozo mantém-se na leitura, sempre a sorrir. Graças às artimanhas e calão próprio de um trio de vadios apostados em roubar um idoso de supostas posses, posses cujo montante as filhas ignoram, por mais que se esforcem em convencê-lo a falar sobre o assunto.
No final, é certo que o trio não levou a melhor e que o velho acaba mais adoentado do que estava, para desespero das filhas agora limitadas ao recurso de o darem, se puderem, por incapaz. Para abreviar a ida às massas do velhote, não vá ele teimar em ficar mais uns longos, para elas, tempos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Borges quer a CGD...


"Não há razão nenhuma para que o maior banco português pertença ao Estado" diz este senhor. E porquê, pergunto eu? Não o foi sempre? O Estado é quem? Onde vai Borges e seus amigos buscar a legitimidade para privatizar a CGD? Sabemos que muitas vezes se confundem com o Estado de que se apoderam, que tratam como seu. Mas nada como porem-se fininhos. Se os amigos querem uma CGD que a criem com os seus meios e recursos.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Le CCB c'est moi!


Tem Vasco da Graça Moura (VGM) o direito de se recusar a adoptar na sua vida privada o novo Acordo Ortográfico (AO)? Claro que tem, e mais: qualquer pessoa tem esse direito.
Mas pode VGM confundir-se com uma instituição, no caso do CCB uma fundação pública de direito privado, para a qual é nomeado, ao ponto de nela se comportar como de sua casa se tratasse? Obviamente que não.

Por outro lado, apesar do seu especial azar ao novo AO, VGM sabe muito bem que se está perante um acordo subscrito por Portugal e outros países e sabe igualmente que a instituições com tutela governamental foram dadas orientações no sentido do cumprimento do AO.
 E que faz VGM como primeiro acto de gestão no seu novo posto de presidente do CCB? Pois nada mais nada menos que elaborar um texto que se diz denso, onde expõe as sua opiniões pessoais quanto ao AO e, em função disso, propor ao CA que no CCB o AO não seja observado, mandando mesmo desinstalar os correctores ortográficos de todos os computadores e não apenas do seu, como afirmou hoje Passos Coelho na AR quando questionado sobre a matéria.
Conhecida que é a habitual postura trauliteira de VGM, isto não deve causar qualquer surpresa. O novo presidente não quis perder tempo para que saibamos qual o estilo da nova programação do CCB, agora coutada onde VGM decidirá como se pudesse ser confundido com o próprio CCB.
Há quem diga que se fez, com o novo AO, um frete ao Brasil. Mas quem não acautelou no tempo que se chegasse às variadas divergências nas ortografias foi Portugal que levou séculos a fixar a ortografia anterior ao novo AO. Não se apontem ao colonizado as culpas deste estado de coisas pois, para além da inexistência de um dicionário consensual na altura em que a corte fugiu para o Brasil, está também na origem desta situação a profunda iliteracia que serviu de pasto à vertente da oralidade da fala em detrimento da escrita. Depois, ao querer passar o oral para a escrita, é o que se sabe, no Brasil e não só no Brasil. Culpa nossa.
O Brasil está-se nas tintas para isto. Pela dimensão que tem, pelo peso que tem a sua actividade editorial no mundo, pelo que tem feito pela divulgação do ensino do português, como se pode constatar pelo sotaque dos estrangeiros que têm ousado aprender o português.
E nós fazemos o quê? Nada, e alguns assumem mesmo a postura quixotesca de admitirem que podem levar a sua adiante. Podem esperar sentados.
Já agora: tendo já lido diversos livros editados em Portugal conforme o novo AO, não vejo quais as dificuldades em assimilar, sem qualquer dificuldade, a nova ortografia.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Zé das generalidades económicas da SIC-N

Como comentador ou entrevistador, destaca-se pelas generalidades e pela postura mansa perante os poderosos e teso para com os outros, que ele sabe bem qual o lado que lhe dá melhor jeito para dormir.
Hoje, sobre uma reunião entre parceiros sociais, de novo a lenga-lenga sobre as vantagens milagrosas da liberalização da legislação laboral, particularmente dos despedimentos. Porque é isso que poderá garantir o crescimento económico e a criação do emprego.
E exemplifica com os EUA: o despedimento a qualquer momento, sem justa causa, ou a possibilidade de o trabalhador se poder igualmente despedir nos mesmo termos - como se isto significasse uma igualdade de direitos entre trabalhador e patrão - é o máximo, sendo assim que se progride.
Mas, porque será que não começa por exemplificar consigo mesmo? Não haverá quem queira este comentador independente a custo zero, já que ele está, certamente, disponível para ser corrido, sorriso nos lábios?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Heil... Merkel!


“Com a subtileza de um elefante numa cabine telefónica, Merkel irá impor, hoje, ao Conselho Europeu o seu pomposo “Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e Governança na União Económica e Monetária”. É pegar ou largar.
[…]
“Este fim de semana, tivemos uma aproximação ao que se pretende, com a fuga de um documento alemão que visa obrigar a Grécia a transformar-se num protectorado, governado por um Comissário, que mais parece um Gauleiter. O princípio orçamental seria: “Primeiro paga-se aos credores, e as migalhas que sobram vão para o povo.” A democracia seria suspensa, pois o parlamento e o próprio executivo de Atenas seriam meras entidades decorativas. A Europa vai a correr para uma catástrofe. O Tratado de Merkel é um copo de cicuta. Um Tratado, verdadeiramente? Já li declarações de guerra escritas com mais educação e elegância.”
Viriato Soromenho-Marques, Professor Universitário
DN de 30-01-12

Passatempo, com patrocínio de um cromo da nossa praça

Quem escreveu o texto que segue, final de uma crónica do DN de 30-01-12?
a)    O inenarrável João César das Neves
b)    O inenarrável J. César das Neves
c)    O inenarrável João C. das Neves
“O Pacto MFA-Partidos não teve consequências por ser parte da vaga marxista que já se aproximava do fim, após rugir há cem anos. Mas os ataques à família ainda crescem imparáveis para o auge. Será a tibieza do actual Governo mais parecida com os Acordos de Munique de 29 de Setembro de 1938, em que tímido Neville Chamberlain cedeu à violência triunfante de Hitler, precipitando como cúmplice a futura catástrofe?”
A onda lasciva está mais perto do fim do que parece. Já chegou à velhice a geração do amor livre, Woodstock e Maio de 68. E será a velhice mais longa e solitária de sempre. Com uma pesada herança de famílias desfeitas, filhos e netos alheios ou não nascidos, promiscuidade, traição, luxúria, enfrenta agora o teste definitivo. As gerações seguintes aprenderão depressa esta triste lição.”

Saúde pública versus saúde privada, segundo Sobrinho Simões


Excertos da entrevista ao Público de 29 de Janeiro de 2012.
“O caso da saúde [do SNS] é uma história de sucesso extraordinária. Nos países em que foi mudado o sistema no sentido da iniciativa privada a saúde piorou e ficou mais cara. Os EUA têm um sistema de saúde pior do que o nosso em todos os indicadores e muito mais caro. Portanto, não acho que em nenhuma circunstância seja defensável pensar em acabar com o SNS ou sequer fragilizá-lo.”
[…]
“Acho muito bem que as pessoas que queiram escolham hospitais privados para ter crianças. Agora, tinha que existir um acordo com os hospitais privados onde há partos e, quando as coisas dão para o torto e elas vão parar às maternidades e hospitais centrais, parte do dinheiro que as pessoas tinham pago revertia para o público. Às tantas, temos tudo o que é rendível nos privados e tudo o que dá despesa é pago por todos nós.”
[…]
“Sou totalmente a favor de reforçar o público, no ensino, na investigação e saúde. Se for preciso aparando as arestas, mas reforçá-lo. Continuo a achar que é criminoso acreditar que a medicina privada e a privatização é melhor. É pior em custos e em eficiência e qualidade.”
[…]
Não tenho nada contra a existência de áreas de saúde que, com regras claras, estejam privatizadas. Mas privatizar o SNS de uma forma disfarçada com a ideia de que os privados gerem melhor que o público? Não. Conheço públicos e privados que são horrorosamente geridos. Todos nós já chamámos canalizadores a casa! Todos nós já recorremos a serviços privados que são muito maus.”

domingo, 22 de janeiro de 2012

Recordando a Costa Brava...


No ípsilon / Público a recensão a esta obra de Pla atribui-lhe uma classificação de 5 estrelas, a máxima.
E, lendo o texto, eis que são referidas as localidades de Figueres, Roses, Cadaqués. Tudo numa zona de afectos naquele espaço da Costa Brava, e que nem o fantasma de Dali consegue perturbar, tal o magnetismo que lhe é peculiar.
A Roses já tinha voltado com a leitura da “A Viagem do Elefante”, pois é em Roses que, segundo Saramago, o elefante é embarcado em direcção a Itália. Agora espero voltar a experimentar antigas sensações, lendo este Pla.