quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Há sempre uma boa razão, uma enorme razão...
Pode haver muitos motivos para se sacar de uma garrafa e
tocar a andar. Ai era ontem? Paciência, mas já não deu. Faltam as passas? Pois
que se lixe. Prefiro figos, pinhões, nozes, caju…
Será isto para dourar o discurso do manhoso ocupante de
Belém que decorre enquanto beberico ? Nem pensar. O gajo que vá para o diabo
que o carregue. E a bebericar assim nem dei pelas merdas que terá dito, que
isto não dá para tudo: beber e dar atenção a um merdas, ao manhoso do palácio
de Belém.
Bebo então por quê? Porque estou bem-disposto. E estou bem-disposto
por quê? Isso queriam vocês saber. Mas é segredo de estado. E mais não digo.
Perguntarão: Ó meu, escreveste isto para quê? Não para vos
atazanar, descansem. Mas sei que há alguém que sabe a razão. Mas quem,
perguntarão? Não estou autorizado a revelar.
Aquele que ali, à direita pergunta, pergunta se não estou bêbedo,
tem direito a isto: vai-te lixar, pois um bêbedo não discorreria deste modo,
nem mandaria para o raio que o parta o manhoso de Belém, nem insistiria ter uma
boa razão para comemorar. Há coisas que nos acontecem e justificam todo o
desvario. Hoje foi o meu dia, ou noite, sei lá eu.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Passos sucede a Thomaz?
Era particularmente nas suas voltas pelo país que a veia
literária do Venerando Chefe de Estado – o respeitinho é muito bonito – melhor se
destacava. Com muito gozo da nossa parte, porque discursos do Venerando eram
para ser passados integralmente no então muito oficioso DN. Assim era fácil, por
exemplo, preencher as pausas nos estudos em cafés com uma mirada no jornal para
lermos, com o sotaque presidencial possível, o último discurso do Venerando no decorrer da romaria que estivesse em curso.
E lá vinham as cenas do periquito oferecido já não sei por
quem, ou a dúvida sobre se aquela era a sexta ou sétima barragem a ser inaugurada, cenas
e cenas. De tão ridículos, a direção da Seara Nova chegava a ameaçar publicar
um discurso de Thomaz no espaço destinado a texto que a censura ousasse cortar.
E, por vezes, mais valia fechar os olhos que ver um discurso do Venerando numa
revista de tal modo opositora à ordem vigente que só para gozar o publicaria.
E tudo isto a propósito de quê?
É que parece estarmos a ver a repetição do fenómeno com os
comunicados passistas coelhistas, particularmente na sua página do facebook. É que já se notam grandes semelhanças, sobretudo ao nível do ridículo.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Primeiro os Pingos Doce e Continentes...
Ana Isabel Trigo de Morais é diretora-geral da APED –
Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição e deu uma entrevista ao
PÚBLICO publicada em 24 de Dezembro. No meio das queixas das grandes
superfícies comerciais de quem vale a pena ter dó, uma resposta é bem elucidativa
do que são os grandes merceeiros deste país. Vejamos:
Pergunta
“A APED vai travar a lei sobre as práticas restritivas de
comércio e o novo diploma que alterou o prazo de pagamento a fornecedores?”
Resposta
“Este último diploma que refere vai alterar os prazos de
pagamento para todos os bens alimentares em Portugal que passam a ser de 30
dias desde que comprados a pequenos fornecedores, apoiamos essa medida, mas há
impacto na tesouraria das empresas. Diz-se que a grande distribuição, ao vender
o produto, fica logo com o dinheiro e pode pagar no dia seguinte ao fornecedor.
Mas quem paga o pessoal, a electricidade, as infra-estruturas?”
Ou seja: primeiro estão os salários do pessoal das grandes
superfícies, os seus mais variados custos e, depois, só depois, os salários e
custos suportados antes do lado do fornecedor. E dizem eles que isto não é um
excelente negócio. Que bom seria que o estado não interviesse nestes abusos.
domingo, 23 de dezembro de 2012
Leituras em dia: "Domínio Público" de Paulo Castilho
Prémio Fernando Namora / Estoril Sol 2012
O reconhecido domínio da língua facilitam-lhe a criação de
personagens que facilmente identificamos como reais, como verosímeis, em
contextos bem próprios do tempo que corre. Por isso faz todo o sentido o
subtítulo “Um olhar irónico e inteligente sobre uma sociedade em crise”, a
nossa, em pleno século XXI.
“A Sofia acha que as minhas ideias são pirosas e no mundo
dela são com certeza. Simplesmente o mundo dela está a desaparecer, as pessoas
agora são outras, são as pessoas que dantes não contavam. Falam do 25 de Abril,
mas a verdadeira revolução é agora, começou há 20 anos e continua. Acabaram os
senhores, só conta o dinheiro e a habilidade e também a determinação, é o que
dá o poder, e isso, na minha opinião, é a verdadeira democracia. Dou emprego a
mais de mil pessoas. Faço o que posso por este país, faço o que é preciso. E a Fundação
servia para quê? Era uma brincadeira. Já pensou? uma fundação dedicada à língua
portuguesa e à literatura do século XX, alguém quer saber? a língua hoje está
na televisão, nos SMS, no Twitter. Sound bites. Os livros são irrelevantes, são
para a elite e a elite é irrelevante. Só conta o que se pode exibir e
distribuir às multidões para consumir a correr, em cápsulas, o tempo é pouco, a
oferta é muita.”
E já são muitos os que pensam assim. Desgraçadamente.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Ou nós, ou os canalhas!
Bruxelas admite derrapagem orçamental para 2013. A canalha
no poder tem já plano B: corte nos salários dos funcionários públicos. De uma
coisa podemos estar certos: esta canalha não parará na criatividade que se
torne necessária para que as suas contas batam certo. Por isso, se for
necessário apertar, por exemplo, nas despesas sociais e nos cuidados médicos
para que se abram campas para reformados e aposentados, também a tais medidas
recorrerão. Melhor: já o vão fazendo pela calada.
Agora há que optar: ou eles ou nós.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Um nababo, um vivaço, um artista.
Ficará na história do anedotário nacional, este maestro. Se não,
vejamos: Miguel Graça Moura fez vida de nababo à conta da Orquestra
Metropolitana de Lisboa, financiada por entidades públicas. E veja-se como:
3.200 euros em joias numa viagem à Tailândia; frequência de cabarets na
Alemanha; camisas de seda e charutos; revistas Playboy , cuecas de fio dental e
protetor solar infantil; até um frigorífico na Tailândia entrou nas contas.
Este nababo considerava isto, de acordo com o PÚBLICO, como despesas
legítimas de representação.
Foi despedido, tinha que ser despedido. E está a ser-lhe
exigido em tribunal o reembolso de 1,3 milhões de euros, que já compreende
juros. O vivaço respondeu com uma ação por despedimento… sem justa causa e por
valor superior ao esbulho dos dinheiros públicos.
São vários os argumentos deste vivaço para explicar este
desmando. Mas, entre elas, a pérola é esta: “O que está em causa só pode ser
percebido ao mais alto nível artístico e tenho dúvidas de que a justiça o
perceba”.
Um artista.
Isto é de canalha
Segundo o PÚBLICO de hoje, o PM terá firmado que alguns
pensionistas estão “a receber mais do que o que descontaram”, pagos “por quem
está hoje a trabalhar”.
Ele sabe do que fala, o que afirma não decorre da falta de
informação. Mas estamos perante um canalha que quer convencer alguns que os que
hoje estão reformados não estiveram, enquanto no ativo, a contribuir para as
pensões dos que antes deles se reformaram. E, canalha que é, finge que não sabe
que quem descontou para a Segurança Social o fez de acordo com as regras
fixadas, quanto a deveres e direitos, pelo Estado que, costuma dizer-se, deve comportar-se
como pessoa de bem e não como um vulgar canalha.
Este canalha terá feito tal afirmação no congresso da JSD
onde aprendeu a ser pantomineiro, onde começou a fazer pela vida de forma torpe,
sem uma gota de suor, criando redes de relações apostadas no tráfico de
influências, como bem se sabe hoje pelos escândalos que têm vindo ao de cima.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
"Detenham esta catástrofe", pede Rui Tavares
“A responsabilidade dos partidos de oposição, em particular,
é muito séria. Sabemos que eles não governam, sabemos que eles nem sequer
concordam. Mas não precisam de governar nem concordar para fazerem três coisas
simples que, só por si, seriam uma formidável barreira à progressão desta catástrofe.
Primeira: falarem, sem precondições. Basta de pretextos
tolos. Façam reuniões, mesmo discordando, e digam-nos em que concordam. Por pouco
que seja, pode ser essencial.
Segunda: ponham limites a este governo. Enunciem claramente
as linhas vermelhas que vos levarão a abrir uma crise política, e ir ao
Presidente da República exigir-lhe ação.
Terceira: abram-se aos cidadãos e aos vossos eleitores, em
particular ao nível local, e deem-lhes liberdade para discutir alternativas
concretas a esta governação.
Precisamos de muito mais que isto. Mas isto é o mínimo que
se pode exigir. O governo perceberá que a oposição sai do seu marasmo e começa
a impor limites e regras, e a preparar-se para o substituir. Só isso pode deter
esta catástrofe. Façam-no, já.”
Rui TavaresPÚBLICO de 17-12-2012
TAP - Operação vergonhosa
“Quem está ajudando o empresário Gérman Efromovich a comprar
a TAP é Miguel Relvas” que “tem amigos influentes no Brasil – inclusive Zé
Dirceu [condenado a mais de 10 anos por envolvimento no caso mensalão] com quem
tem uma fortíssima ligação política” afirma no Globo Ancelmo Goes, segundo
relata o PÚBLICO de 17-12-2012.
Que negócio é este onde, de um momento para o outro, o único
candidato atira com mais 150 milhões para a mesa, como se de trocos se
tratasse?
Que pouca vergonha é esta onde um dossier desta natureza
está nas mãos de um canalha, ministro por equivalência?
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Foi cá um trambolhão...
Desta vez foi mais que susto, que mera ameaça. Um trambolhão, ontem.
Quantos segundos? Os suficientes para pensar, como a querer antever, o que
poderia resultar, enquanto rolava na escada. De repente, logo a seguir a um aflitivo
ai, solidários à minha volta. Estava bem, obrigado, apenas aleijado numa perna.
Se queria que me levassem a algum lado. Que não. Nos bolsos do kispo mantinham-se
os dois Dalton Trevisan e “A Próxima Década”. As canadianas não me abandonaram.
E abalámos dali. O tratamento ficou por betadine na arranhadela no joelho
esquerdo.
A vida vai.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Leituras em dia: "José" de Rubem Fonseca
Ainda não é a biografia de um escritor de quem gosto muito. Mas
temos aqui a sua infância e uma parte da sua juventude. De um jovem a
aproximar-se dos noventas anos.
Um livro que se lê num ápice. Com muito gozo.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Portugal (ainda) não é Grécia.
As condições acordadas para a Grécia não podem ser aplicadas
a Portugal porque Portugal (ainda) não é a Grécia. Quando Portugal for a
Grécia, então teremos as condições da Grécia.
E estamos no bom caminho para isso. Aliás, não nos serem
agora permitidas as condições da Grécia, nomeadamente quanto a juros, comissões
e maturidades, é isso mesmo: alcançar rapidamente a situação em que se encontra
a Grécia. Nessa altura, o PM e o ministro das Finanças exultarão, triunfantes,
e declararão: como vos dizíamos, nos teríamos as condições da Grécia quando
fossemos como a Grécia e, felizmente, já somos.
No meio disto, para lá da incompetência, temos a desfaçatez de
Gaspar quando afirma que as declarações
de Juncker, do PM e dele próprio – que Portugal aproveitaria das condições da
Grécia – “foram descontextualizadas de forma pouco cuidada”. Pelos vistos, diferente
seria se a descontextualização fosse bem cuidada. Parece que nem as baixas rotações lhe
permitem um discurso mais escorreito.
Já Juncker foi mais original: não percebeu a pergunta feita “num
canto escuro” e “em condições desconfortáveis”, quando o que interessa é que,
respondendo, declarou que Portugal poderia aproveitar as condições da Grécia.
Claro que todos se esqueceram de, antes de se pronunciarem, perguntarem o que
autorizava a Dona Merkel, através do seu ministro das Finanças. E este decidiu,
puxando as orelhas a todos os paus mandados. Que não merecem outra coisa.
sábado, 1 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
O Rapto de Europa - VII
O Rapto de Europa de Bruno Bruni
Teresa de Sousa
“A nossa aposta é a do “bom aluno” e a nossa estratégia é a
de Berlim. Isso é evidente e é criticado. Mas o facto de estarmos a viver este
processo de ajustamento diabólico não quer dizer que diabolizemos a Alemanha,
que sempre foi um parceiro muito importante para Portugal.”
Maria João Rodrigues
“E que deve continuar a ser. Mas o debate tem que ser
europeu. E não de uns contra os outros. Um país como o nosso tem de manter
relações directas e intensas com a Alemanha e a França, que são os países
centrais da integração europeia. Mas, acima de tudo, tem de estar nessas
relações com um ponto de vista europeu. Ou seja, de quem não quer resolver só o
seu problema, mas que tem ideias para resolver o problema do conjunto, já demos
essa prova inúmeras vezes. Somos ouvidos e isso está a falhar completamente.”
Teresa de Sousa
“Seria uma forma de contrariar a ideia de que a crise europeia
só tem a ver com os endividados países de Sul ou, em sentido contrário, que a
responsabilidade pela situação em que estão a cair os países do Sul é apenas da
chanceler alemã?”
Maria João Rodrigues
“Se a nossa mensagem for uma mensagem de diabolização ou de
entronização da Alemanha, duvido que consigamos afastar esses sentimentos. A nossa
mensagem tem de ser qualquer coisa de muito diferente. Reconhecer que temos
problemas que dificultam o nosso crescimento, a nossa competitividade, o nosso
reequilíbrio orçamental, e que temos que fazer um esforço para corrigir estes
problemas. Mas acrescentar que o esforço que nos está a ser imposto acabará por
ser contraproducente porque, ao minar o crescimento, impede a própria
consolidação orçamental. E explicar que o ritmo de redução do défice não pode
pôr em causa as condições básicas de protecção da população e nem pode levar à
liquidação de empresas e empregos viáveis. Também não devemos ter medo de dizer
qual é o ritmo que conseguimos manter para atingir um défice que não deve ser
nominal mas estrutural, e dizer que isso é possível se as condições de
financiamento forem revistas. Estou absolutamente convencida de que isso é
entendido.”
Maria João Rodrigues, conselheira das instituições
europeias, em entrevista ao PÚBLICO / P2, de 18-11-2012.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
A reindustrialização segundo Passos e Álvaro
Hotel Alfamar
“Os 490 milhões de euros em falta nas contrapartidas dos
submarinos ficarão liquidados se os alemães da Ferrostal investirem 150 milhões
na recuperação de um velho hotel no Algarve para unidade de luxo. O PÚBLICO
sabe que este montante resulta do acordo assinado em Outubro entre o Ministério
da Economia e a empresa responsável pelas contrapartidas, o qual substitui 19
projectos industriais por um único projecto turístico-imobiliário em que o
sectoe da construção civil será o principal beneficiário.”
O Álvaro tinha anunciado a reindustrialização do país. E temos
aqui um bom exemplo. Para além de um desconto de todo o tamanho aos súbditos de
Dona Merkel.
E ninguém vai preso? E o tão atento fininho Ferreira Gomes da SIC-N não vem a terreiro dizer de sua justiça?
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
O Rapto de Europa - VI
O Rapto de Europa de Alexander Sigov
Teresa de Sousa
“Aparentemente, a estratégia do Governo para ganhar
competitividade e atrair investimento é a desvalorização salarial.”
Maria João Rodrigues
“Há uma escola de pensamento que defende que a competitividade
depende acima de tudo dos níveis dos salários e que os salários em Portugal são
demasiado elevados para a produtividade do país. Ora, todos os estudos mostram
que esse problema existiu há uns anos mas que, neste momento, os salários já
estão alinhados com os níveis de produtividade e que mostram que, se um país
como Portugal quer aumentar a competitividade, tem acima de tudo que investir
nos factores que não são o custo do trabalho: na inovação, educação, energia,
qualidade da gestão, qualidade da justiça.”
Maria João Rodrigues, conselheira das instituições
europeias, em entrevista ao PÚBLICO / P2, de 18-11-2012.
domingo, 25 de novembro de 2012
O Rapto de Europa - V
O Rapto de Europa de Nikias Skapinakis
Teresa de Sousa
“Mas não há aí um choque entre a urgência da crise e o
calendário eleitoral alemão?”
Maria João Rodrigues
“A grande questão que se coloca é essa: saber se é possível
aguentar até Setembro com esta metodologia dos pequenos passos, quase sempre
aquém do necessário.
A chanceler tem sempre utilizado uma metodologia de
negociação em que só faz alguma concessão depois de ter conseguido previamente
garantir uma condicionalidade para essa concessão e garantir que pode controlar
a forma como essa concessão vai ser feita. Ela tem uma metodologia negocial que
é sempre a mesma: contrapartida, controlo, condicionalidade. Os seus três “C”.
e é uma negociadora dura, porque conhece a fundo os dossiers, estuda-os, sabe a
matéria.”
Teresa de Sousa
“Mas é difícil de imaginar que isto consiga aguentar mais um
ano.”
Maria João Rodrigues
“É por isso que defendo que países como o nosso deviam
aproveitar essa percepção para fazer um argumento muito simples: os programas
da troika têm que ser realinhados de acordo com o novo quadro europeu que,
entretanto, foi adoptado ao longo dos últimos meses.”
Teresa de Sousa
“Como?”
Maria João Rodrigues
“Primeiro ponto de alinhamento: os programas têm de
passar a conter medidas de impacto real em matéria de emprego e crescimento
económico com a mesma importância das medidas para reduzir o défice e a dívida.
Segundo ponto: o critério de aferição da consolidação orçamental não pode ser o
défice nominal, tem que ser o valor das medidas que estão a ser adoptadas e o
seu impacto no défice estrutural. A questão fundamental é olhar para a dinâmica
de crescimento e de redução da dívida, e não do défice, numa óptica de longo
prazo. O outro ponto-chave é reconhecer que é impossível combinar crescimento e
consolidação orçamental com esta taxas de juro e de maturidade
As parentes de La Pedrera ou Casa Milà (Barcelona)
No centenário da Casa Milà, também conhecida por La Pedrera,
ficam outras obras, da mesma época, e que permitem identificar ligações
invisíveis entre os diversos criadores. Este o tema da exposição “Las otras pedreras. Arquitectura
y diseño del siglo XX”.
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| Hotel Mezzara - Hector Guimard - Paris |
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| Palais Stoclet - Josef Hoffmann - Bruxelas |
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| Casa Milà (La Pedrera) - Antoni Gaudi - Barcelona |
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| Glasgow School of Art - Charles Mackintosh - Glasgow |
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| Looshouse - Adolf Loos - Viena |
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| Robie House - Frank Lloyd Wright - Chicago |
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| Maison Horta - Victor Horta - Bruxelas |
O Rapto da Europa - IV
O Rapto da Europa por Fernando Botero
Teresa de Sousa
“Mas o que queria dizer quando referiu que o debate europeu
estava a mudar e que o Governo português devia aproveitar essa mudança?”
Maria João Rodrigues
“Queria dizer que se mantêm ainda as divergências
fundamentais sobre como promover o crescimento mas que há pelo menos um debate
entre percepções diferentes. O Governo alemão continua defender basicamente a
mesma coisa: reformas estruturais, mais redução do défice para repor a
confiança. Do ponto de vista dos alemães, estas são as condições básicas para
que haja crescimento. Quando Merkel diz que apoia o crescimento, é só isso que
ela apoia. Mas há uma outra corrente de pensamento que diz: isto não chega
porque faltam as condições de acesso ao crédito e, consequentemente, meios para
investir. Se esta questão não for atacada, não é com as políticas de redução do
défice e com as reformas estruturais que se volta ao crescimento. Esta é a
grande divergência.”
Teresa de Sousa
“Como é que se ultrapassa essa divergência?”
Maria João Rodrigues
“Ora bem, é isto que mostra que a Europa não está apenas confrontada
com uma escolha entre mais austeridade e mais crescimento. Já estamos para além
dessa questão. A questão agora é que a única forma de voltar a combinar
crescimento e consolidação orçamental é através desta grande reforma da UEM,
sem a qual o acesso ao crédito não é restabelecido e sem a qual não há os meios
de investimento de grande vulto. Porque não é só com o Banco Europeu de
Investimentos (BEI) que vamos lá. Temos de pôr a banca de novo a emprestar às
empresas.”
Maria João Rodrigues, conselheira das instituições
europeias, em entrevista ao PÚBLICO / P2, de 18-11-2012.
O Rapto de Europa - III
O Rapto de Europa por Rembrandt
Teresa de Sousa
“Disse recentemente que o debate europeu estava a mudar,
fazendo uma crítica ao Governo português por não estar a aproveitar essa
mudança, insistindo nos efeitos nefastos do programa de ajustamento.”
Maria João Rodrigues
"Sim. De há um mês para cá, essa percepção está a mudar. Até Junho,
tínhamos sobretudo visitas dos primeiros-ministros europeus dos vários
Estados-membros a duas capitais: Bruxelas e Berlim. Agora, há um outro padrão
de reuniões que envolvem Roma ou Paris e a informação começa a circular de
outra maneira. E permite, por exemplo, que sejam levantadas questões
fundamentais em pleno Conselho Europeu. Por exemplo, aquelas que o Presidente
Hollande levantou no último: como é possível pedir a estes países que retomem o
crescimento e que invistam, se eles estão sujeitos a taxas de juro muito
superiores às que nós temos, na França e na Alemanha.”
Teresa de Sousa
“É pedir-lhes o impossível.”
Maria João Rodrigues
“Exactamente. É criar uma situação de concorrência desigual
no quadro do próprio Mercado Único. Creio que essa situação também tem sido
colocada de forma recorrente pelo primeiro-ministro Monti. Do lado alemão
temos, pelo contrário, alguns comentários como, por exemplo, os do ministro das
Finanças [Wolfgang Schäuble], que anunciou que a Alemanha está a atingir o
défice zero e que é este o bom exemplo para os seus parceiros. Omitindo completamente
que isso é possível para a Alemanha porque conta com uma taxa de juro que é
negativa.”
Maria João Rodrigues, conselheira das instituições
europeias, em entrevista ao PÚBLICO / P2, de 18-11-2012.
sábado, 24 de novembro de 2012
O Rapto de Europa - II
O Rapto de Europa por Pablo Picasso
Teresa de Sousa
“Os líderes no Conselho Europeu tomam decisões sem saber o resultado
das decisões que toma?”
Maria João Rodrigues
“O que acontece é que estes programas de ajustamento são
avaliados sobretudo em sede de ECOFIN (Conselho de Ministros das Finanças) onde
só se olha para os grandes indicadores: défice, dívida, balança corrente. O que
lhes interessa é se o défice externo começou a reduzir, se a capacidade
exportadora aumentou. Se isso acontece, então está tudo bem.
Teresa de Sousa
“Aparentemente o FMI tem maior noção dos efeitos dos
programas de ajustamento do que os europeus, o que é um pouco estranho.”
Maria João Rodrigues
“A explicação, creio que está, em parte, no facto de haver
correntes teóricas com pesos diferentes no seio destas instituições. Mas a
razão de ser principal é o facto de o Conselho Europeu não ter um conhecimento
mais completo da realidade. Porque essa realidade não é transmitida.”
Maria João Rodrigues, conselheira das instituições
europeias, em entrevista ao PÚBLICO / P2, de 18-11-2012.
O Rapto de Europa - I
O Rapto de Europa por Rubens
Teresa de Sousa
“Bruxelas é a sede das instituições europeias. Mas temos,
todos, consciência de que uma das consequências desta crise tem sido o
enfraquecimento destas instituições e que o poder se transferiu para os
governos, ou melhor, para Berlim. Este enfraquecimento das instituições
europeias também ajuda a explicar a falta dessa narrativa que mencionou?”
Maria João Rodrigues
“Há um debate sobre o que desapareceu ou deixou de ser
visível que deveria traduzir aquilo que designamos por interesse comum europeu.
Não há em Bruxelas actores com a força de liderança suficiente para
apresentarem propostas que vão ao encontro desse interesse comum. Às vezes
tentam. Mas rapidamente recuam, sempre que percebem que há uma oposição clara
do aldo alemão. Não há força para produzir uma síntese que seja, ao mesmo
tempo, aceitável do lado alemão e do lado dos outros. Dou-lhe um exemplo. Nesta
construção de uma UEM [União Económica e Monetária] mais completa há hoje uma
enorme divergência entre a posição do Presidente Hollande e a chanceler Merkel.
Basicamente, o Presidente Hollande diz que, antes de avançar para uma maior
partilha de soberania, tem de haver sinais claros de maior solidariedade
europeia. Solidariedade na resposta às crises bancárias, eurobonds para gerir a
dívida pública e mesmo um orçamento para a zona euro destinado a apoiar os
países que tenham problemas. A chanceler Merkel coloca a sequência exactamente
ao contrário: primeiro, quer garantias de controlo dos orçamentos e só depois,
eventualmente, discutirá novos instrumentos de solidariedade. A meu ver, um
discurso comunitário devia dizer: pois bem, as duas coisas são precisas ao
mesmo tempo. Esse seria um compromisso verdadeiramente europeu.”
Entrevista ao PÚBLICO / P2, de 18-11-2012.
E de Maria João Rodrigues, conselheira das instituições europeias, não se ousará dizer que não sabe do que fala.
Escola, indivíduo e sociedade
Foi a baronesa Thatcher que afirmou "Não existe essa
coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos" porque isso de
sociedade, digo eu, é coisa perigosa, mas já um individuo é facilmente controlável,
amestrado, configurado de acordo com a ideologia e os interesses da classe
dominante, reproduzindo o discurso de tal classe. A estes indivíduos basta
pertencerem a uma tribo, grupo com comuns interesses, impenetrável por quem não
tenha cartão e quotas em dia.
Mas sociedade é coisa mesmo perigosa: interclassista, imprevisível,
incontrolável se livre, inquieta se exigente, caminhando ao ritmo das suas
pulsões, gerando e ultrapassando crises na busca do progresso colectivo. É
aqui que se afirma a cidadania, que se torna justificada a solidariedade, é
aqui que nos aproximamos uns dos outros, atenuando diferenças nunca eliminadas.
Tem a escola a ver com a opção que se faça entre a ênfase no
indivíduo, na tribo, ou na sociedade? Naturalmente que tem. Por isso, a
eliminação da disciplina de Educação Cívica é uma clara afirmação do caminho pretendido
para o futuro por quem hoje nos governa: o individualismo egoísta, o mimetismo acrítico, enfim, as
condições capazes de permitir a reprodução do discurso da classe dominante,
diria opressora.
E a quem afirme dever colocar-se em primeiro lugar a
liberdade individual, há que responder que isso em nada é incompatível com
outros e tão nobres valores, nomeadamente o da responsabilidade cívica.
Há que recuperar para a escola pública o sentido cívico da
escola republicana enquanto espaço de crescimento, de liberdade e de cidadania, queira ou não queira quem hoje põe e dispõe.
É preciso refundar o Estado Social?
Raquel Varela, historiadora, coordenou o livro “Quem Paga o
Estado Social em Portugal” (Bertrand, 2012) e subscreve uma crónica no PÚBLICO
de 22 de Novembro que seria bom que fosse lido por todos quantos se afirmam a
favor do Estado Social e o querem defender de forma sustentada. Claro que mais
longe, nesse sentido, irá o livro.
De acordo com estudos efectuados, certamente bem suportados,
é possível saber que os trabalhadores entregam mais ao Estado que aquilo que
dele recebem em gastos sociais (saúde, educação, Segurança Social, transportes,
desporto, espaços públicos, cultura). Deste modo, os défices públicos não podem
ser assacados aos gastos sociais.
Por outro lado, do estudo resulta que, embora os rendimentos
dos trabalhadores, incluindo os pagamentos dos trabalhadores para a Segurança
Social e a TSU, antes de impostos, seja de cerca de 50% do PIB, 75% da
tributação provinha dos desses mesmos trabalhadores, segundo dados de 2010 e
2011.
Que tem então o Estado Social a ver com a dívida pública?
Nada.
No entanto, a situação poderia ser melhor, no que respeita à
Segurança Social se esta não fosse usada para facilitar a reestruturação de
empresas privadas e privatizadas, com reformas antecipadas e, acrescento eu,
com pré-reformas que, embora a cargo das entidades patronais, se traduzem numa
redução das contribuições para as empresas e os trabalhadores em situação de
pré-reforma.
Bom seria que se pegasse neste estudo, nomeadamente o PS. E argumentasse
em conformidade perante a canalha que nos governa. Porque quanto a estes não se está
perante uma mera incompetência ou ignorância, pois sabem bem ao que andam.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Cavacadas...
Há pessoas capazes de uma enorme
lata.
“Numa altura em que urge criar
riqueza no país e gerar novas bases de crescimento económico, é necessário
olhar para o que esquecemos nas últimas décadas e ultrapassar os estigmas que
nos afastaram do mar, da agricultura e até da indústria”. (PÚBLICO de 22-11-2012)
Quando fala das últimas décadas,
será que Cavaco Silva inclui aquela em que foi primeiro-ministro – 1985-1995 –
exactamente aquela em que se abate a frota pesqueira, se abandonam os campos e
se aposta quase exclusivamente no betão?
Será que o estado de amnésia é
tal que já não se dá conta de que exerceu as funções de primeiro-ministro e
durante 10 anos?
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Ernesto Melo Antunes
Auditório 3 da FCG cheio que nem um ovo, com dezenas de
pessoas de pé. Para apresentação de uma biografia sobre um homem sem o qual
tudo teria sido bem diferente, para pior, no nosso percurso pós 25 de Abril,
embora o seu comprometimento político viesse já de longe, quando, por exemplo,
ousou apresentar-se como candidato pela CDE em 1969, apesar de ser militar. Pretensão
recusada pois o regime apenas tolerava candidaturas militares pela União
Nacional.
Melo Antunes, senhor de uma grande cultura e enorme
coerência, foi o ideólogo do MFA, pela intervenção que teve na redacção do seu
programa e do Documento dos Nove, para além de ter evitado o ajuste de contas
pretendido pela direita no pós 25 de Novembro, numa intervenção hoje tida como
fundamental para a afirmação de um estado de direito em Portugal.
Além disso, teve desempenhos relevantes como presidente da
Comissão Constitucional, sucessora do Conselho da Revolução e embrião do futuro
Tribunal Constitucional, como ministro dos Negócios Estrangeiros, como
conselheiro de estado. Mas incompreendido por muitos e alvo de vinganças
mesquinhas, como foi a de Freitas de Amaral quando lhe vetou uma nomeação
internacional.
Apenas visualizei uma pessoa que se pode ter próxima da
governação que nos vai e desgraçando, mas Mota Amaral já vem doutros tempos,
nada tendo a ver com estes estroinas do seu partido.
Para além da excelente e viva apresentação do livro feita
por António Reis, realce para a evocação de uma amizade e de uma cumplicidade
ideológica e política feita por Vasco Vieira de Almeida, que só pecou por ser
curta, tal o prazer com que era escutado, e a carta de Santos Silva, presidente
da FCG e ausente por razões de força maior, lida por Teresa Patrício Gouveia.
Eramos muitos. Uma editora ousou apostar num género
comercialmente pouco interessante, com cerca de 800 páginas. Tudo isto empolga.
Tudo isto anima.
Questões comuns colocada pelos intervenientes - Eanes,
António Reis, a autora, Joana, filha de Melo Antunes, Vasco Vieira de
Almeida, Vasco Lourenço: que pensaria Melo Antunes dos tempos que vivemos? Como
interviria em tal contexto?
Gente há cuja morte é uma perda, uma irremediável perda.
Uma crónica à VL
Mas quem eram eles, tão visados por cumprimentos de tantos? Para
mim ele estava irreconhecível, melhor: há muito que o não via quando, em
tempos, cheguei a conversar com ele na AR. Era o tempo do ex-Secretariado e da
suspensão de funções por Soares, por causa do apoio do PS a Eanes. Mas hoje
estava bem mais velho, cabelo bem puxado desde as entradas atá ao pescoço.
Por sua vez, ela, cabelos loiros compridos, apresentava-se
de casaco e saia, com o casaco de tal modo cintado que o peito subia quase ao
queixo. Muito vistosa.
Ele ficou descodificado quando preencheu o seu lugar no
auditório. Ela ficou-se pela plateia e só pode ser a Io Apolloni, embora não
jure.
Estavam muito bem.
PS. Quase parece uma crónica à VL, aliás Armanda.
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