domingo, 24 de março de 2013

O ridículo na arte do regime

Coisas há que nunca haveria se a criatividade parasse às portas do ridículo. Mas isto é o nosso fado: a arte espetáculo e sua artista alcandoradas a arte e artista do regime, deste regime, naturalmente, fatalmente.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Quem tem medo de Sócrates?


Para mim foi dos melhores dois ou três primeiros-ministros da nossa democracia.
Corajoso a incomodar interesses corporativos instalados, como ninguém o tinha feito antes: professores, magistraturas, médicos, indústria farmacêutica...
Voluntarioso e perspicaz na persecução das reformas necessárias no ensino, na saúde, na segurança social…
Por isso, ninguém como ele foi tão longamente perseguido nas instâncias judiciais, no julgamento de caráter na praça pública, mesmo com intromissões inaceitáveis na sua vida privada.
Foi cilindrado pelo impacto que teve a crise financeira mais grave depois dos anos vinte nas dívidas soberanas. Crise que agora já se aceita ter igualmente atingido a Irlanda, Grécia, Espanha, Itália… mas entre nós a culpa era dele e apenas dele.
Caiu em consequência dos resultados eleitorais. E afastou-se.
Mas continuou a ser o alvo preferido para bombo da festa de alguns, fosse porque vivesse num pretenso luxo parisiense, fosse porque tivesse aceitado uma oferta de trabalho. Porque a ele nada se poderia permitir, salvo ser o objeto das calúnias de sempre, do preconceito ignorante e atrevido.
Mas isso era pouco. Quem sempre foi objeto das mais negras e caluniosas campanhas deveria aceitar ouvir e calar. Falar não, menos ainda defender-se.
E isto diz bem de certa gente para quem bastaria um cheirinho à pólvora do antigamente para calar, no mínimo calar, um adversário político. Porque esta é a mesma mentalidade dos responsáveis por uma longa ditadura.
Finalmente:
Todos têm direito a pensar de modo bem diferente de Sócrates e não é isso que está em causa. O que questiona é a mordaça pretendida. O que questiono é que, para justificar tal mordaça, se insista naquilo que designo por conversa de taxista ou de salão de cabeleireiro: retomar a acusação de prática de crimes a que os tribunais não deram seguimento, estando os longos, muito longos, processos encerrados, sem recursos pendentes. Porque isso já não é opinião. É a acusação da prática de crimes por quem se julga juiz encartado pelo preconceito e pelo atrevimento canalhas próprios.
Com algumas pessoas estou habituado a coisas destas pois sempre misturaram as coisas – a opinião e o facto - do alto da sua saloia pedantice. Outros surpreendem-me, e muito, por esperar mais deles.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Síria - A linha vermelha

Foto de Goran Tomasevic / Reuters
Já se usam armas químicas na Síria segundo a imprensa. Ora Obama tinha definido ser essa a linha vermelha que não podia ser ultrapassada.
E agora?
 
Mortos serão pelo menos 70 mil. A par de centenas de milhares de deslocados. Falta ainda o quê para ter a Síria completamente destruída?

Foi há 10 anos a invasão do Iraque

Foto de Goran Tomasevic / Reuters
“A invasão que, há dez anos, derrubou o regime de Saddam Hussein em Bagdad representou um sério revés para a lei internacional, para a ONU e para a ordem mundial. E foi o maior fiasco de política externa dos EUA desde o Vietname.”
PÚBLICO de 20 de Março de 2013
Ainda segundo o mesmo jornal:
- 200 mil iraquianos civis mortos e 40 mil americanos mortos ou feridos
- um custo de três milhões de milhões de euros suportados pelos EUA com a operação
- deslocações em massa, violência persistente, tensões confessionais acrescidas e violência entre sunitas e xiitas, atentados suicidas frequentes
- um país arrasado, nas suas estrutura físicas, institucionais e políticas.
Um hediondo crime contra a paz da responsabilidade de Bush e Blair, acompanhados de outros idiotas menores, mas igualmente responsáveis, como é o caso do Japão.
Hoje pode perguntar-se quem mais mal fez ao Iraque e ao seu povo, se Saddam ou se Bush e Blair.
O caricato foi o primeiro ter sido julgado e executado e os segundos andarem por aí gozando a vida, impunes.
Tudo, recorde-se, sustentado numa mentira: as terríveis armas jamais encontradas.

terça-feira, 19 de março de 2013

O canalha merceeiro


É o mais velho de oito filhos de um carpinteiro e agricultor e de uma costureira.
A formação em química sustenta certamente a sua tendência para pirómano e as tiradas de fogo-de-artifício com que que nos distrai, desde há muito, das suas habilidades e canalhices. Que são muitas.
Mas também é artista ao ponto de convencer muitos de ser um empresário modelo, ele que passou da indústria – e sabe-se com que artes lá chegou – para o imobiliário e a distribuição alimentar, ou seja, arriscar, mas pouco, mas sempre a falar grosso, estilo pedante.
Agora saiu-se com mais uma da sua lavra de pateta, de tonto, de canalha: quanto menos se pagar mais emprego haverá. Talvez convidando a que outros façam como ele fez ao longo da vida, porque não foi o suor que o levou ao terceiro lugar entre os mais ricos do país.
Sabemos para que se engorda um porco. Este canalha, esquecendo as origens, empanturra-se para levar a exploração dos outros aos limites do insustentável. Se o primeiro vai à faca, este que se ponha em frente da bala amiga, pois tresanda mais que o outro, ao ponto de não se poder aguentar.

Que se lixe Chipre?


Uma ilha, menos de um milhão de habitantes, não pesando mais que 0,2% do PIB europeu. Bem ajustado para uma canalhice de  tipo novo por parte da EU e de quem nela manda, nada mais que quem nos lembra os piores horrores do nosso passado recente e para quem devem cansar os 60 anos de paz entre os povos.
Quando se impôs o perdão à Grécia, a canalha conhecia perfeitamente a exposição de Chipre à dívida grega, exposição que implicou a perda de cerca de 4,5 milhões à banca cipriota e a que, certamente, se juntam as habituais patifarias dos banqueiros.
Claro que o perdão à Grécia, se tramou Chipre, safou os bancos alemães intoxicados igualmente com dívida grega, pelo que o perdão não foi uma ação de misericórdia para com os gregos, mas um favor aos bancos de quem manda na Europa.
E como resolver agora o problema de Chipre? Pois nada como, pela calada da noite, como é próprio dos bandidos, ir às poupanças dos cipriotas na forma de depósitos bancários, num confisco que se estima em 5,8 milhões de euros.
O resgate de Chipre faz-se sob a “ajuda” de um valor acima de 10 milhões de euros. A perda com o perdão à Grécia mais o roubo dos depósitos é de mais ou menos aquele valor. Estamos quites, dirão, à conta dos mesmos, sempre os mesmos.
Por cá, já temos novo slogan: Portugal não é Chipre, durmamos descansados. Como se a canalha que já nos lixou até onde sabemos, sem acertar uma, não seja capaz de nova canalhice, como agora aconteceu com Chipre.
Claro que se poderia falar de princípios atraiçoados, de atitudes inqualificáveis, de falta de solidariedade, de quebra de confiança. Mas isso só faria sentido se não estivéssemos perante os maiores canalhas da história, já a rivalizar com Hitler, mesmo que os métodos sejam outros. Porque há muita maneira de ocupar ou anexar um país e de estrangular povos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Feitos num oito...


Lembro-me de ver a minha Mãe a desenhá-los sobre um tabuleiro untado. A seguir era aquele cheiro que inebriava, quando quentes saíam do forno do fogão a lenha.
Gostava e gosto destes oitos, mas não de estar feito num oito, de continuar feito num oito, depois da sétima avaliação da troika. Que oitos nos virão com a oitava avaliação?

segunda-feira, 11 de março de 2013

Falou a Dona Bonifácia...

… no seu habitual estilo, agora entrevistada por São José Almeida, no PÚBLICO de hoje. A “insuspeita” entrevistadora teria que embrulhar, na mesma pergunta à Dona Bonifácia, o Miguel Relvas e o ex-PM. O primeiro por ser quem é, o segundo por ter aceite o convite de uma farmacêutica para trabalhar. E que diz a propósito do segundo a Dona Bonifácia? Pois que a sua contratação permite estabelecer uma relação com o seu papel político, o que, acrescenta a Dona Bonifácia, diz muito da falta de brio e respeito por si próprio do ex-PM. Mas qual será a relação? Dona Bonifácia dispensa-nos de saber. A bicada está dada, é tudo. Explicar ou provar dá trabalho.
Claro que a Dona Bonifácia pode agora ser membro do conselho científico da fundação do merceeiro. Mas aqui nenhuma relação deve ser estabelecida, dada a assumida competência da pedante para quem a preocupação por cultura começa no limiar mínimo da “Guerra e Paz” de Tolstoi, “O Vermelho e o Negro” de Stendhal, o “D Quixote” de Cervantes e um trio de Schubert, a par da filosofia. Ser culto só daí para cima.
Na resposta à questão “Vivemos um fim de época histórica?” a Dona Bonifácia arranjou artes para meter o António Costa. Porque este terá afirmado, cito a Dona Bonifácia, que “nós gastámos na exata medida em que fomos estimulados para isso”. “Irresponsabilidade”, clama Dona Bonifácia, que certamente nunca se apercebeu da instigação ao consumo e ao endividamento por parte da banca, esta sim altamente responsável pela dívida privada bem mais pesada que a pública. E era a isto que Costa se referia.
Da extrema-esquerda a conservadora assumida, a D Bonifácia surpreende sempre. De forma superior.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O Emérito foi às papas e falou...

O Emérito foi hoje à moagem dos cereais para as papinhas. E, aleluia!, falou. O Emérito existe e fala. E diz que trabalha 10 horas por dias, mas outras aos sábados e domingos. Que está atento e que, quando necessário, fala com o primeiro. Aliás vinca a sua grande experiência como primeiro e presidente. Que lhe permite saber muito bem ao que anda. Por isso se dispensa de falar ao país, aos que o elegeram. E se sai pouco é porque tem uma agenda sempre muito sobrecarregada, o tempo muito ocupado intramuros. A vida é cá fora, mas isso pouco importa ao Emérito que nunca perceberá o nosso azar em o ter como presidente escondidamente ausente.
O presidente foi à moagem e continua a moer-nos o juízo com trivialidades rascas e uma completa inação. Restam-nos as papas, apesar dele.

"O Dia Seguinte" (SIC-N) é uma vergonha

A SIC-N tem um programa de agressão desportiva às segundas-feiras e que se pretende seja um programa de informação desportiva. Com 3 senhores moderados (?) por um jornalista. Senhores licenciados, advogados, falhados ou dispensados de coisas a que se aventuraram, como seja o dirigismo desportivo ou o exercício de cargos autárquicos, ou mesmo de governante. Uns sem vergonha.
Um deles, o Gomes, é o pior entre eles. E como me custa escrever isto de alguém que ali grita na qualidade de adepto do Glorioso. Mas os outros dois não estão longe dele: em gritaria, em mútuas ofensas, na elaboração de delirantes teorias para verem justificadas as decisões de arbitragem que lhes convenha, ou proscrever as que não lhes interessam. Uns criativos à conta de muita baixeza, de muita desonestidade intelectual, de muita gritaria.
Isto é assim há muito, sendo por isso o pior, aliás não comparável, entre programas com o mesmo formato, mas onde os comentadores comentam, respeitando-se a si e a quem os escuta ou vê.
Um dos assuntos que por vezes aborda este trio de imbecis é a violência no desporto, sem se dar conta de que a instigam com o modo como entre eles se comportam. Porque ali já só falta ir à cara uns dos outros, com ontem se viu nas cenas entre o Gomes e o Ferreira, com ofensas que não lembram ao diabo, ao mesmo tempo que cresciam um para o outro.
E a SIC-N vai manter aquilo? A linha editorial da estação consegue rever-se naquilo? Pagam a estes imbecis – parece que bem – para obrigarem os telespectadores a gramar cerca de 2 horas de uma palhaçada sem nome?
Mandem lá à vida Aguiar, Ferreira e Gomes. Por razões de decência e higiene. E a bem do ar que queremos respirar.
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

E vão 10...

… dez jornalistas da redação do Diário de Notícias, cujos nomes são citados pelo jornalista João Miguel Tavares numa crónica que publica no PÚBLICO de 01 de Março de 2013.
Dez jornalistas que transitam para os mais variados cargos de nomeação direta do governo de Passos Coelho, mas sempre com lugar garantido na redação do jornal a que foram requisitados quando o governo estoire ou quando entendam recuar.
Jornalistas para qualquer serviço: assessores, administradores, diretores-gerais. Um fartote de largas e insuspeitadas competências.
Para quem não acredita que o DN é um laranjal, fica a prova. E, no entanto, nunca um governo comunicou tão mal.
Por outro lado, esta é a nova forma de fazer política de que fala e abusa Passos Coelho.

"Água - Operação Secreta": UE Promove a Privatização da Água


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Era Carnaval...



Era segunda-feira de Carnaval. Estava de saída do HSM mas ainda deu para ver chegar os tabuleiros com o almoço. E todos comentavam com um sorriso coisa uma nunca vista: os votos de rápido restabelecimento por parte de quem fornece as refeições, de confeção e sabor tão pouco apreciados.

Mas era Carnaval, altura em que ninguém leva nada a mal.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vai dormir, Relvas!

“O desemprego jovem tira-me o sono. Eu não sou insensível”, afirma Relvas, segundo o Público de 18-02-2013 que também refere que, segundo Relvas, a sua filha, com 21 anos, desconhece o programa Impulso Jovem que define a estratégia do governo para o desemprego jovem.
Temos um ministro ensonado que não percebe que a sua filha não precisa de nenhum impulso desde que saia ao pai ou que, então, não acredita nele nem nos seus programas, como acontece com muita gente.
Por essas e outras, mais por outras, é que Capucho, em entrevista à Visão da passada quinta- feira afirma, “Não percebo como o Governo não mede o desastre que Relvas constitui para a sua imagem. Podia voltar ao parlamento, pois foi eleito deputado. Que ele continue no Governo é um mistério para mim insondável!”

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Oito dias depois...

Faz hoje oito dias. E a vida vai, sobretudo quando as coisas correm bem. Mesmo se defrontando algumas contrariedades, como é esta de ter que ficar por aqui, aguardando ficar recuperado para poder sair porta fora.
Mas tenho os alôs dos amigos e a presença dos livros, dvds e cds, igualmente bons amigos, também imprescindíveis. E um silêncio que gozo por não me ser imposto. E que dá para arrumar algumas ideias.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Será Obama um socialista?

“Quase todos nós concordamos que um plano para reduzir o défice deve fazer parte da nossa agenda. Mas é bom que sejamos claros: a redução do défice só por si não é um plano económico”, afirmou Obama no seu discurso ao Congresso sobre o Estado da União.
Por isso, para Obama e segundo o Público de hoje, o investimento público em áreas como a educação, infraestruturas, investigação e inovação científica e energias alternativas ajudará a economia a crescer e criará “bons empregos para a classe média”.
Por cá é o que sabemos. O défice é tudo, com as consequências conhecidas. Será Obama um socialista?

Leituras em dia: "Cartas de Casanova - Lisboa 1757" de António Mega Ferreira

Evadido de uma prisão de Veneza no verão de 1757, António Mega Ferreira ficciona a presença de Casanova em Lisboa durante um período de tempo em que se desconheceu o seu paradeiro. E por ele, Casanova, Mega ferreira decide escrever seis cartas dirigidas a personagens importantes da vida de Casanova.
Estavam decorridos 2 anos após o terramoto e Lisboa continuava como ficou após o tremor de terra, com a corte instalada em barracas construídas para os lados de Belém, assim como parte significativa da nobreza. Casanova, aliás Mega Ferreira, descreve o ambiente da altura: as intrigas da corte, os ciúmes quanto ao então poderoso Sebastião de Carvalho, a miséria em que vivia a generalidade da população. E, claro, havia que igualmente imaginar e relatar o que poderiam ser envolvimentos amorosos à Casanova, por Casanova.
Um livro que se lê de uma penada, porque nos prende tudo quanto caracteriza a envolvente histórica que, essa sim, não é mera ficção. E que fica bem descrita.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Cause - Sixto Rodriguez


Magistratura de influência

No site da Universidade Católica, onde foi docente, o SE cuja nomeação está hoje no centro da polémica indica, como atividade profissional para o período de dezembro de 2007 a outubro de 2008: “CEO de um Grupo de participações sociais envolvendo as áreas da saúde, hotelaria, retalho automóvel e sistemas de informação.” E isto diz bem do conforto que sente pelo seu envolvimento na SLN/BPN no tempo das grandes trapalhadas e trafulhices com as consequências que conhecemos. De facto, nos demais anos da sua atividade, Franquelim Alves indica de forma clara as empresas ou instituições por onde andou mas quando chega à SLN/BPN… trata-se de um grupo de participações sociais.
Para o farsolas PM isto não é relevante. Ter-se passado pela SLN/BPN, com o nível de responsabilidades do agora SE, não pode impedir uma pessoa de exercer uma atividade profissional, como se ser membro de um governo fosse uma atividade qualquer. Por isso deve ter em carteira outros que tais, se necessário: Dias Loureiro e Oliveira e Costa igualmente catedráticos da mesma escola de virtudes.  
Ainda para o mesmo farsolas, isto não provoca qualquer problema à coligação, porque a indicação não foi feita pelos partidos que apoiam o governo mas sim por ele e pelo Álvaro. No entanto, o CDS já começou a assobiar para o lado, demarcando-se, como se isso fosse suficiente para salvar a face.
O ex-acionista da SLN/BPN, nas condições e com os proveitos conhecidos, foi alertado para o passado deste SE. Mas nem pestanejou ao dar-lhe posse. E a isto chama-se magistratura de influência.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Leituras em dia: "A Polaquinha" de Dalton Trevisan

O relato irónico das aventuras eróticas da protagonista desde único romance de um grande contista brasileiro. A transgressão ao rubro, a moral – o que será a moral? – mandada às urtigas. A leitura com sorriso nos lábios.
Embora Prémio Camões de 2012, até há pouco apenas tinha sido editado entre nós “Cemitério de Elefantes”, em 1984. Mas parece que agora é de vez, estando já publicados, para além do aqui referido, “O Vampiro de Curitiba” e “Novelas nada Exemplares”. Merecidamente.

Leituras em dia: "A instalação do medo" de Rui Zink

“Na soleira da porta, dois homens. Um de fato e gravata, elegante, esguio, nariz e lábios finos, pasta tecnocrata na mão. O outro mais atarracado, carão fechado, fato-macaco, caixa de ferramentas numa senhora manápula.
- D-desculpem, estava com a máquina de lavar, não ouvi…
Mal diz isto a mulher percebe que é mentira errada.
Da cozinha não vem barulho nenhum da máquina de lavar.
Os homens olham para a mulher como se não olhassem para a mulher.
É estranho. Os homens não têm um ar ameaçador. Antes pelo contrário. O de fato até parece loquaz; o outro, sim, é mais bruto, pesado, ausente.
- Bom dia, minha senhora – diz o de fato, com o seu ar loquaz. – Viemos para instalar o medo.
- O m-medo?...
O de fato loquaz faz uma expressão de espanto retórico:
- A senhora não foi avisada? – O homem faz uma expressão de então com olhos.
A mulher morde o lábio:
- Tem de ser hoje? É que eu já tinha planeado…
O homem de fato loquaz, embora cordato, é firme:
- Minha senhora, o progresso não para. É pelo bem do país.
- Pois. Mas é que eu não estava prepar…
O homem de fato faz um ar desapontado:
- A senhora não me diga que é contra o bem do país.
- Eu…
- Ou contra o progresso.
- …
- Ou contra o medo.
A mulher morde o lábio:
- Não. Claro que não…"
E é isto. Um fresco do país que hoje somos e onde se instala o medo que se insinua de forma silenciosa. Tudo numa narrativa bem imaginada, por isso original, e muito absurda. Como absurdos são os tempos que vivemos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Banca patriótica, diz o tonto.

No decurso do debate quinzenal de hoje na AR, o merecidamente mal-amado PM referiu como patriótica a compra, por parte da banca nacional, de títulos da dívida portuguesa, o que me leva a concluir que isso de patriótico já teve dias muito melhores.
De facto…
Não tenho por patriota quem especula com a dívida soberana e, se ofende o verbo especular, pelo menos que se saiba que a banca compra dívida com dinheiro dos depositantes e, nos dias de hoje, com dinheiro emprestado pelo BCE, um e outro conseguidos a preço de saldo.
 
Patriota é quem, subscrevendo certificados de aforro, empresta ao Estado com taxas bem abaixo daquelas que a banca paga aos depositantes. Aliás, o governo é conivente com a banca nesta sacanice: porque paga mal aos aforradores, muitos destes acabam por optar pelos depósitos bancários que, depois, são usados para compra de dívida pública a taxas bem mais elevadas do que as que pagaria se privilegiasse os certificados de aforro.
Mas voltando ao patriotismo. A banca nacional é hoje, na sua grande maioria, detida por capitais estrangeiros, apesar da visibilidade de portugueses como Ulrich, Ricardo Salgado e outros, meros paus mandados dos... mercados que representam. Ora, se é questionável que estes sejam mais patriotas que aqueles que aguentam a fatura do desgoverno, muito menos o são ainda os acionistas estrangeiros para quem a compra de dívida pública é um negócio de garantido rendimento. E apenas nesse sentido se interessam por Portugal porque o capital não tem alma ou sentimentos.
Mas Passos é isto: um bronco que não mede o que diz e que até será bem capaz de propor ao senhor de Belém que vá pensando umas comendas a jeito para esta tropa fandanga da banca.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Não vai de cavilha, vai de parafuso!

Não vai de cavilha – seria melhor -, vai de parafuso, dois parafusos. De hoje a oito dias. Espero que seja o início da saída desta cena já muito prolongada e por muito que isso venha a custar às minhas queridas canadianas que, no entanto, ainda serão obrigadas a alguma companhia num pós operatório que não será tão curto quanto desejava.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

FdP, no plural.


Olhando os recibos, de Dezembro passado para Janeiro: mais 4.00 na taxa do IRS e mais a sobretaxa de 3.50%.
Olhando os valores líquidos – os brutos não me interessam – tenho menos 235€ por mês. E não sei se já está tudo.

FdP!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Boémio?

Uma revolução pacífica e consequente assenta em cabeças, não nas armas ou na força. Sabemos bem quais as cabeças a que se deve uma revolução pacífica e consequente como foi o 25 de Abril.
E uma coisa parece caracterizar tais cabeças: não foram longe nas suas carreiras, algumas foram convidadas a sair e a outras foi mesmo negada a comezinha justiça, por aqueles que a tais cabeças deviam o poder e a promoção social por si alcançados.
Mas houve quem, apenas conhecido pelo seu mero militarismo, sem uma ideia conhecida, tenha sido premiado de forma vergonhosa, bastos anos depois de ter optado por uma atividade profissional bem mais rentável e para o que lhe eram úteis as tais virtudes militaristas. E chegou ao topo, embora com negação de mérito para tanto por parte de alguns dos seus camaradas mais próximos, aqueles a quem muito se deve.
Mas o mito estava criado e havia que preservá-lo. Para adocicar uma vida privada pouco recomendável para a farda, passou a ser chamado, poeticamente, de militar boémio.
Fosse eu, e não passaria de um bêbedo putanheiro.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Os octávios

Andava com esta na tola já há uns tempos: falar dos octávios, uma espécie começada com um exemplar agora mais afastado, e cuja existência parece longe de estar ameaçada, pois cada vez temos mais octávios.
Um octávio caracteriza-se por dar a entender que sabe coisas que mais ninguém sabe, coisas que poderiam causar terramotos se fossem dadas a conhecer.
Para que todos acreditem estar mesmo no âmago de segredos de estado, um octávio recorre sempre, junto dos seus diretos interlocutores, à expressão “vocês sabem bem do que estou a falar”. Por outro lado, ou porque não sabe assim tanto, ou não os tem os sítio para contar, um octávio tem também como expressão recorrente o “vocês não me puxem, pela língua”.
O original era um tipo assim para o tosco, com que a gente se divertia e, recolhido às lides agrícolas, eu tinha os octávios por extintos, isto é, octávio era só um: o machado e mais nenhum. Mas este octávio fez escola e temos hoje octávios licenciados, o mais célebre dos quais será um comentador desportivo que usa exatamente os mesmo tiques do original, o ferreira a dias, e uns ex-qualquer coisa, com origem mais saliente na pejota, sejam eles moitas, ou flores, ou barras na costa. Este tem mesmo clube de fãs no FB, qual estrela.
Sabem fazer pela vida, os octávios: são contratados como gargantas fundas mas têm o cuidado de não se espalharem, e nunca nada de novo se saberá a partir das suas gargantas. Mas há muitos que os ouvem, na expectativa de uma escorregadela que nunca chega. Uma fraude, os octávios de agora, a provar que não há nada como o original.
Larga as vacas, machado, e desbronca estas cópias.

Holocausto


Hoje é o Dia Internacional da Memória do Holocausto. E nenhuma referência nos noticiários. Idem nos jornais online com exceção de uma referência indireta por causa de um disparate de Berlusconi para quem a Mussolini nenhumas culpas devem ser assacadas. Felizmente que os seus compatriotas, na altura, pensaram, e bem, de modo diferente, executando-o.
Mas grandes são as loas hoje, nos jornais e noticiários, a um militar com vida muito longe de ser exemplar. Um mero buldogue para quem a razão não ia além da força bruta. Que alguns se atrevem a classificar como herói. Ora a morte de alguém não deve justificar tudo, para que seja possível distinguir o bem do mal.

A traição da UGT


Como sou fraco em desenho, vou explicar-me assim, por palavras.
A troika manifesta uma pressa inaudita para que se baixe o número de dias a considerar para cálculo de indemnização por despedimento dos trabalhadores. E apenas por uma razão: porque há pressa em despedir, porque outra razão não pode haver. De facto, se não houvesse pressa em despedir, também não haveria pressa em fazer aprovar a medida.
E isto porque, feita a aposta na desvalorização dos custos do trabalho, nomeadamente para que seja garantida a tão desejada e apregoada competitividade, nada como proceder deste modo:
- reduzir o custo a suportar com os despedimentos, para o que interessa reduzir o número de dias a considerar no cálculo das respetivas indemnizações e, então, despedir.
- proceder de seguida a novas admissões aproveitando uma reserva de mão de obra disponível e amansada por aquilo que é a atual taxa de desemprego, a par do desespero causado pelas medidas de austeridade.
Neste contexto, é possível despedir a custos bem mais baixos a mão-de-obra mais idosa e, em geral, mais bem remunerada, e que será substituída por outra mais jovem, mais qualificada, mais barata e mais dócil. E já agora: uma mão-de-obra menos interessada em qualquer processo de sindicalização.
O resultado é então: redução dos custos de trabalho para as empresas, desemprego definitivo para os mais idosos, futuro menos interessante para os novos ativos, perda de influência dos sindicatos, perda da coesão e solidariedade entre os trabalhadores. Um regresso ao passado.
A UGT não quis ver isto que todos veem, pelo que traiu quem nela confiou. Agora, em desespero de causa, tenta remediar o mal que está feito. Inutilmente.
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O regresso aos mercados... (5)


Fotos de Alfredo Cunha
... ou o regresso ao passado.


O regresso aos mercados... (4)


Fotos de Alfredo Cunha
... ou o regresso ao passado.

O regresso aos mercados... (3)


Fotos de Alfredo Cunha
... ou o regresso ao passado.

O regresso aos mercados... (2)


Fotos de Alfredo Cunha
... ou o regresso ao passado.

O regresso aos mercados... (1)


Fotos de Alfredo Cunha
... ou o regresso ao passado.


De que ri a Menina Tildinha?



Era o PREC, com todos a caminho do socialismo, CDS incluído. Por isso não são de estranhar estes slogans que fotografei na zona de Lisboa e que fez sorrir a Menina Tildinha.