sexta-feira, 24 de abril de 2009

Jornalistas e jornaleiros

Quando me tornei leitor habitual de um jornal diário – o saudoso DL – havia, falando dos editados em Lisboa, outros: DN, Diário Popular, República, O Século. E a escolha fazia-se um pouco em função das tendências políticas dos jornais e dos seus leitores, numa altura em que tal era exibido de modo muito constrangido.
Mas nuns e noutros, havia jornalistas audazes, numa permanente luta contra a censura – a comissão de censura -, baptizada mais tarde de exame prévio, exame em que se chumbava tudo quanto não fosse conveniente para o regime. Mas, por vezes, com arte e engenho, lá se conseguia fazer passar a prova escrita, a caminho dos seus leitores.
Muitos jornalistas eram publicamente conhecidos, quase diria venerados. Porque, além do exercício difícil da profissão, ousavam enfrentar a ditadura nos abaixo-assinados, nas listas de candidatos da oposição numas farsas de eleições que o regime afirmava serem tão livres como na livre Inglaterra.
Eram outros tempos, melhor, eram outras pessoas, os jornalistas.
Por isso, apesar daquele contexto, seria capaz de admitir como que um levantamento popular se então alguém do poder ousasse chamar-lhes bastardos, para não os apelidar de filhos da puta.
Hoje, isso nem aconteceu quando assim foram chamados, nem creio que possa vir a acontecer.
E a culpa não é dos leitores, nem do povo.

2 comentários:

Jorge Manuel Ferreira disse...

DEMOCRACIA JORNALISTICA DIFICIL

Economicistamente falando,jornalisticamente falando,os jornalistas ainda têm carteira profissional...
E têm tambem que sobreviver...

Sendo assim,onde aparece a isenção?
Bem...não há almoços grátis...


A reter:Talvez a nossa independencia... que "sabemos ler"
democráticamente nas entrelinhas...dos jornalistas...



«Os bons e os maus»

"Já há mais jornalistas a contas com a justiça por causa do Freeport do que houve acusados por causa da queda da ponte de Entre-os-Rios. Isto diz muito sobre a escala de valores de quem nos governa.

Chegar aos 35 anos do 25 de Abril com nove jornalistas processados por notícias ou comentários com que o Chefe do Governo não concorda é um péssimo sinal. O Primeiro-ministro chegou ao absurdo de tentar processar um operador de câmara mostrando que, mais do que tudo, o objectivo deste frenesim litigante é intimidar todos os que trabalham na comunicação social independentemente das suas funções, para que não toquem na matéria proibida. Mas pode haver indícios ainda piores. Se os processos contra jornalistas avançarem mais depressa do que as investigações do Freeport, a mensagem será muito clara. O Estado dá o sinal de que a suspeita de haver membros de um governo passíveis de serem corrompidos tem menos importância do que questões de forma referentes a notícias sobre graves indícios de corrupção. Se isso acontecer é a prova de que o Estado, através do governo, foi capturado por uma filosofia ditatorial com métodos de condicionamento da opinião pública mais eficazes do que a censura no Estado Novo porque actua sob um disfarce de respeito pelas liberdades essenciais. Não havendo legislação censória está a tentar estabelecer-se uma clara distinção entre "bons" e "maus" órgãos de informação com advertências de que os "maus" serão punidos com inclemência. O Primeiro-ministro, nas declarações que transmitiu na TV do Estado, fez isso clara e repetidamente. Pródigo em elogios ad hominem a quem não o critica, crucifica quem transmite notícias que lhe são adversas. Estabeleceu, por exemplo, a diferença entre "bons jornalistas", os que ignoram o Freeport, e os "maus jornalistas" ou mesmo apenas só "os maus", os que o têm noticiado. Porque esses "maus" não são sequer jornalistas disse, quando num exercício de absurdo negou ter processado jornalistas e estar a litigar apenas contra os obreiros dos produtos informativos "travestidos" que o estavam a difamar. E foi num crescendo ameaçador que, na TV do Estado, o Chefe do Governo admoestou urbi et orbi que, por mais gritantes que sejam as dúvidas que persistem, colocar-lhe questões sobre o Freeport é "insultuoso", rematando com um ameaçador "Não é assim que me vencem". Portanto, não estamos face a um processo de apuramento de verdade. Estamos face a um combate entre noticiadores e noticiado, com o noticiado arvorando as armas e o poder que julga ter, a vaticinar uma derrota humilhante e sofrida aos noticiadores. Há um elemento que equivale a uma admissão de culpa do Primeiro-Ministro nas tentativas manipulatórias e de condicionamento brutal da opinião pública: a saída extemporânea de Fernanda Câncio de um painel fixo de debate na TVI sobre a actualidade nacional onde o Freeport tem sido discutido com saudável desassombro, apregoa a intolerância ao contraditório.

Assim, com uma intensa e pouco frequente combinação de arrogância, inabilidade e impreparação, com uma chuva de processos, o Primeiro Ministro do décimo sétimo governo constitucional fica indelevelmente colado à imagem da censura em Portugal, 35 anos depois de ela ter sido abolida no 25 de Abril."

(Mário Crespo)


Um abraço

2MOPinto disse...

Atrevo-me a dizer que o Proprietário do Blog fez batota.
Reparem no recorte que falta no jornal que ilustra o post.
Pois é aí mesmo, nesse minúsculo espaço, que escrevem os Jornalistas de hoje.
Assim não.
Que as páginas do jornal sejam repartidas de igual forma por todos, quer sejam Jornalistas ou meros jornaleiros.

Agora mais a sério:
Eu compreendo a mensagem, ainda que não concorde com as conclusões tiradas.
Também eu diria que no meio está a virtude. O problema estará em saber onde fica a virtude, já que o meio é fácil de encontrar.